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Os melhores de 2012/01

E os prêmios de melhores obras lidas nesse primeiro semestre de 2012 vão para:

– Romance: O falecido Mattia Pascal, Luigi Pirandello;

– Conto/novela: O aniversário da Infanta, Oscar Wilde;

– Poesia: La Araucana, Ercilla;

– Teatro: Heraclius, Pierre Corneille;

– Acadêmico: O Rei-máquina, Jean-Marie Apostolidès;

– Outro: Poética, Aristóteles.

Essa pequena obra, mais conhecida como O pintor da vida moderna, é um escrito de Baudelaire publicado no Figaro, em 1863, sobre o desenhista Constantin Guys. Além de inspirador e inteligente, o ensaio tem aquela carga de texto fundador da estética moderna, de que Baudelaire é autor essencial. Embora eu não conheça muito de modernismo, acredito ser este texto um dos primeiros a apresentar essa sensibilidade pelo artificial e urbano que, visto tratar-se de um ensaio sobre outro artista, já se vinha espalhando.

Certa vez, um professor meu comentou que há quatro autores fundamentais da cultura moderna: Baudelaire, Marx, Freud e Darwin. Acredito ser verdade. Como que quatro marcos do pensamento que esteve em pleno vigor até as últimas décadas do século passado, mas que inauguraram, entreviram, ou sintetizaram – na verdade, tanto faz – cada um, uma ideia genial, cuja longevidade é assegurada por serem não só substratos de um tempo, mas novas maneiras de ver. E Baudelaire, nesse ensaio, parece ter plena consciência disso. Achei curioso como ele mesmo parece incumbir-se de estar à frente da tradição, e feliz por encontrar em Constantin Guys um desenhista desse novo sentimento.

Edição: Paz e Terra, 1996. Sem indicação de tradutor. Organizador: Teixeira Coelho.

 

Constantin Guys, Carruagem e três cavalheiros em…, 185-.

 

Mulheres que leem

e flores.

 

David Émile de Noter, Leitura, 1858.

 

Charles James Lewis, Leitura à janela, c. 1860.

 

Frances Jones Bannerman, O conservatório, 1883.

 

Pierre-Auguste Renoir, Jovem lendo, 1886.

 

Alexei Alexeivich Harlamoff, Uma garota lendo, s/d.

 

Wiliam Frederick Yeames, Flores do dia, c. 1900.

 

Adrian Paul Allinson, Mulher lendo, 1940.

 

Henri Matisse, Annelies, tulipas brancas e anêmonas, 1944.

 

Sally Rosenbaum, Garota de chapéu vermelho, c. 2010.

 

Jean-Claude Götting, s/t., 2010.

 

Mulheres que leem

socialmente.

 

Wilhelm Amberg, Lendo Werther de Goethe, 1870.

 

Thérèse Schwartze, Três meninas do orfanato de Amsterdam, 1885.

 

Alexander Marc Rossi, Livros proibidos, 1897.

 

Theo van Rysselberghe, Chá da tarde em jardim no verão, 1901.

 

Theo van Rysselberghe, Uma leitura no jardim, 1902.

 

Thomas Benjamin Kennington, Relaxamento, 1908.

 

Edmund Charles Tarbell, Três meninas lendo, s/d.

 

Vittorio Matteo Corcos, Leitura a beira-mar, 1910.

 

Walter MacEwen, Interior holandês, s/d.

 

Melinda Byer, Três Gerações, s/d.

 

 

 

 

 

 

Thémistocle, Du Ryer

Thémistocle é a tragédia de um eminente oficial grego exilado na corte de Xerxes em plena guerra greco-persa do século V a.c.. A obra foi escrita em 1648 pelo padre Du Ryer, talvez um dos melhores tragediógrafos da primeira metade do século. E o classicismo francês do XVII é um daqueles períodos tradicionalmente férteis em pérolas literárias, como o próprio século V a.c. na Grécia, o XII com os trovadores, o XVI na Itália, o XIX, etc. A tragédia clássica francesa é um gênero de obras muito belas, que, embora seja pouco lido (sobretudo por ser pouco traduzido), possui uma visão de mundo muito interessante, cheia de alegorias, metáforas, dilemas e ambiguidades. Os personagens se dividem entre duas forças extremas: a honra e a paixão. A tragédia é como um espaço isolado, um labirinto regido por essas forças irresistíveis.

Temístocles é um eminente líder das frotas gregas responsável por esmagar os persas em batalhas ocorridas antes do início da tragédia. É, no entanto, desprezado por seus concidadãos e malquisto na Grécia inteira em razão de acusações relacionadas a disputas de poder. Refugia-se na corte do imperador inimigo, Xerxes, com quem mantém uma relação de reconhecimento recíproco de honra e valor. Embora inimigo, Xerxes acolhe Temístocles e este aceita o abrigo adquirindo uma dívida de honra que será decisiva. Alguns personagens da corte persa veem a situação com espanto indignado, e o crescimento do valor de Temístocles aos olhos do imperador faz Artabaze, o primeiro favorito da corte, tramar a decadência do grego. Outro motivo de Artabaze tramar contra Temístocles é seu amor por Palmis, que o imperador termina por prometer a Temístocles. A intriga amorosa é sempre fundamental na tragédia francesa. Enfim, Artabaze faz com que Xerxes imponha uma condição à união entre Temístocles e Palmis, que é o grande dilema e o ponto alto da tragédia: o enlace só se dará se Temístocles investir contra a Grécia com as tropas persas. De modo que o grego, no dilema trágico característico do classicismo, se vê dividido entre a honra e o amor, entre a pátria mãe e sua paixão. Realmente, interessante. Mas o desenlace, a meu ver, decepciona: Temístocles, negando macular sua honra, negando atacar seu país, ainda que ingrato, torna-se, aos olhos do grande persa, digno da mão da princesa Palmis, de modo que o plano de Artabaze resulta no contrário do intencionado. E, assim, a tragédia Thémistocle, como várias outras do classicismo francês, tem um estranho final feliz, o que é curioso quando você vê escrito em letras garrafais na capa da obra: “tragédie“. Mas o classicismo francês é assim, tragédias sem mortes, e com um final confortador em que o leitor percebe a intenção que o autor teve de arrancar um ‘ufa!’ da plateia. Nem todas as tragédias francesas são dessa forma, algumas mantêm o sangue e a angústia, mas não é o caso de Thémistocle.

Mulheres que leem

com um je ne sais quoi de angelical.

 

Brocky Károly, Retrato de Ottilia Medgyaszay, 1833.

 

Alfred Stevens, Dama lendo, 1856.

 

Friedrich von Armeling, s/t, c.1870.

 

Pierre Auguste Cot, Ofélia, 1870.

 

William-Adolphe Bouguereau, Livro de histórias, s/d.

 

Adolphe Etienne Piot, A leitora, s/d.

 

Leon François Comerre, Garota com coroa dourada, s/d.

 

Kamir Kaufman, Mulher lendo, 1921.

 

Joseph Alleman, O companheiro, 2001.

 

Gabrielle Bakker, A leitora, 2007.

 

 

 

Fiquei com uma impressão muito forte desse livro. Por causa das imagens fortes e da atmosfera tensa, a leitura foi acompanhada de um sensível incômodo do início ao fim. Tenho isso de ser psicologicamente afetado pela leitura (na verdade, só considero o livro – ou a leitura – bem-sucedido se me vi afetado de alguma forma). E foi devido à densidade da obra que me demorei um pouco mais do que o normal para um livro tão curto. Depois de já ter percebido do que se tratava, cheguei a pensar: ‘Ainda bem, ainda bem que são só 200 páginas’.

Porque o livro de Remarque é terrível; totalmente bem-sucedido em sua proposta de dar ao leitor a impressão do trauma que viveu a geração do autor durante a primeira guerra mundial. O fato de ser escrito em primeira pessoa torna tudo diferente, assim como o fato de o próprio autor ter combatido na guerra (e diga-se de passagem: do lado alemão, mais massacrado). A obra é a história de Paul Baümer, que entra na guerra aos dezoito ou dezenove anos, vive sua experiência transformadora e morre aos vinte, no final de outubro de 1918, alguns dias antes dias antes de a guerra terminar. Sua morte é banal, e o título do livro vem daí, nada de novo no front. Os laços de companheirismo, bem como toda demais relação humana, são modificados pelas circunstâncias da guerra, de modo que o protagonista sente-se esvaziado de memória, de identidade e de tudo mais que caracteriza um sujeito. Seu grupo de amigos, que vinha desde o colégio, se desfaz. Sem dúvida, é um dos livros mais tristes e marcantes que li.

Edição: L&PM, 2008. Tradução: Helen Rumjanek.