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Archive for Agosto, 2011

Para Löwy e Sayre, o romantismo é a crítica nostálgica às condições capitalistas de vida. O ensaio dedica-se à catalogação de autores românticos conforme a forma de sua crítica. Assim, há o romantismo restitucionista, o romantismo conservador, o romantismo fascista, o romantismo resignado, o romantismo liberal, o romantismo revolucionário, o romantismo libertário e o romantismo marxista. Todos eles têm em comum a rejeição do capitalismo e a idealização de uma sociedade passada – ou passada e futura – embora guardem notável diferença de projetos políticos. Os valores românticos promovidos contra aqueles da sociedade industrial referem-se ou à exploração do mundo interior das emoções e da imaginação em oposição à mecanização das relações humanas, ou ao sentimento de totalidade em relação a um mundo exterior, que pode ser a natureza ou a humanidade, como um sonho recriador de uma sociabilidade pura da comunidade humana, fragmentada na modernidade.

O estabelecimento de todos aqueles tipos de romantismo busca dar sentido a um conceito aparentemente contraditório. Como é possível que chamemos românticos, ao mesmo tempo, Chateaubriand e Michelet? Por que participam do mesmo movimento intelectual defensores de ideias tão díspares? Bem, todos criticam o mundo como está, e exaltam o mundo como foi.

Não acho válido questionar a teoria a que o autor oferenda seu trabalho, e não o deixaria de ler por isso. Prefiro antes criticar seu texto, e sua argumentação faz todo sentido. O problema é que ela não me diz muito. Basicamente, o texto pretende provar uma ideia que está fixa a cada palavra: a de que os românticos eram anticapitalistas. Para tanto, os autores vão às últimas consequências: o estabelecimento da tipologia faz com que, dentro do romantismo, seja enquadrada boa parte da produção cultural desde o início do século XVIII, ou até antes, até os dias atuais. Porque, de fato, dizer que o gesto caracterizador do movimento é uma crítica nostálgica à vida na sociedade capitalista moderna faz com que haja romantismo inclusive no… classicismo. E, não menos, nos movimentos do século XX, como os autores mencionam. Sim, eu entendo, tudo isso é romântico. Mas talvez exista aqui alguma confusão entre o movimento e o adjetivo. O texto faz sentido, como eu disse, mas gira em torno de si mesmo, a própria proposta é o assunto e o termo. A tipologia é interessante, mas não serve para nada. Ou melhor: para ninguém que não partilhe do vínculo teórico do autor. Acho isso um grande defeito, de modo que a obra ensina mais sobre marxismo do que sobre romantismo.

 

Malevich, Branco sobre Branco.

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Tenho 8 obras sobre as quais escrever no blog, e não tenho tempo para nenhuma. Enquanto o tempo não chega, deixo por aqui umas gravuras renascentistas.

 

Mulher vista de trás, Michelângelo.

 

Sem título, Guido Reni.

Atlas, Peruzzi.

Madonna, criança e anjo, Zuccaro.

Estudo de Santa Catarina, Parmigianino.

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Copiando, em escala mais modesta, o blog Casa da Bibliofilia, elejo aqui minhas melhores leituras de janeiro a junho deste ano:

 

Romance: O Talismã, Walter Scott.

Conto/Novela: A Estepe, Tchecov.

Poesia: Sonetos, Florbela Espanca.

Drama: Macário, Álvares de Azevedo.

Filosofia: Filosofia da História, Voltaire.

Acadêmico: Voltaire – nascimento dos intelectuais no século XVIII, Pierre Lepape.

 

 

Deux chevreuils dans la forêt, Gustave Courbet.

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Pronunciado por Paul Valéry no Segundo Congresso Internacional de Estética e Ciências da Arte, em 1937, esse discurso traz uma reflexão sobre a condição científica da Estética e sobre a tradição clássica, a mais forte tentativa de definição das regras de enquadramento da beleza nas possibilidades humanas.

Posicionando-se como leigo no assunto, o filósofo e poeta lembra a importância, para uma ciência, que há nas opiniões de desconhecedores, pois elas permitem o retorno frutífero às intenções primeiras, aos dilemas fundamentais e aos fins mais básicos dessa ciência. A Estética teria o caractere maravilhoso de ser uma espécie de Ciência do Belo, capaz de estabelecer o que é preciso amar, o que é preciso odiar, aclamar ou destruir, capacitando o homem a produzir obras de arte de valor incontestável. Mas, certamente, a Estética também seria uma Ciência das Sensações, que, dizendo o que é sentir, seria capaz de revelar todos os segredos da arte.

De qualquer forma, para Valéry, para uma definição de Estética nos prestar algum serviço, ela deve resumir o objeto comum das idéias de beleza de todas as épocas. Porém, avaliar a matéria imensa de todas as técnicas humanas seria uma pretensão, um esforço vão, condenado ao fracasso pela simples impossibilidade de se conhecer empiricamente todo o objeto. Resta, então, uma divisão inevitável dos trabalhos do espírito: aqueles em que a moral ocupa um lugar fundamental, em que a ideia de belo é correspondente à de bom; e aqueles em que em que ela cede a um valor mais imponente.

A Estética nasceu, portanto, de uma especulação metafísica, a partir de um apetite filosófico pela beleza, capaz de reduzi-la a uma expressão coerente que se desenvolve em plano abstrato. Nem ao domínio da pura inteligência, nem ao da pura sensação, nem àquele da ação no mundo, as questões estéticas se referem a um novo campo, a que a razão dá um lugar, uma justificação e um significado, na ordem do mundo. Esse é o pensamento clássico (e neoclássico) acerca da beleza.

Porém, no domínio daquilo que é belo, é inevitável o encontro com o prazer. Não o prazer definível por sua utilidade ou pelo efeito negativo que seu excesso causa, mas um prazer de gênero específico, manifestado pela combinação da inteligência e da sensibilidade, indefinível e imensurável, que comunica uma ilusão de compreensão íntima do objeto que o causa. Excita a inteligência opondo-se à divisão de dificuldades cartesiana, pois impõe uma aliança de forma, conteúdo, pensamento, ação e paixão. O desejo, então, torna-se causa e consequência de si mesmo e a criação desprende-se de qualquer motivo ou busca de satisfação, tornando-se criar por criar.

O filósofo, o esteta classicista, se vê debruçado em tentativas de entender esse ímpeto, sistematizando-o. Esse prazer é, na verdade, a corsa fantástica que as escolas buscam capturar, e assim nascem, para Valéry, as regras da arte. Pureza, universalidade e lógica são, assim, virtudes metafísicas criadas para encerrar a presa mágica. Encerram, porém, não mais que paradoxos, dentre os quais o maior é a absurda separação entre a beleza e as belas coisas.

Para Paul Valéry, o grande fracasso da metafísica clássica reside no fato de o prazer ser individual e momentâneo, e, como toda sensação, não subsiste no universal. Como não há ciência do particular, a Estética guarda a decepção prévia de fazer descobertas dentro de um universo que lhe é cômodo, mas cuja unidade é rejeitada pelo real. Não há nada mais indefinível que o prazer, incerto e incomunicável. E essa sequência de negativas, única aproximação possível fora da metafísica, só nos diz que chamar uma obra de bela é dar-lhe valor de enigma.

Embora a Estética clássica não tenha percebido o valor desse enigma, e tenha tentado dissipá-lo por meio de regras canônicas, Paul Valéry diz que isso não significa que ela não tenha mais valor. Significa somente que, ao tomar as normas como um valor absoluto, o classicismo atribui às obras de arte uma importância imaginária. Acho isso extremamente importante, pois permite perceber de forma clara que, por mais que vivamos em um mundo moderno, podemos nos encantar com obras clássicas e classicistas. Porque, ao discordarmos das ideias antigas do que se espera de uma obra, ao considerarmos tudo isso metafísica, não precisamos subtrair todo seu valor: o fato de ela ter sido feita conforme preceitos que ultrapassamos não nos diz para a ignorarmos, mas para a vermos com olhos humanos, se estivermos abertos a tanto. Tal abertura, tais olhos, são, na verdade, raros. Difícil ver quem não faça das vanguardas do século passado gaiolas para se proteger.

Invenção que pensa seguir princípios inquestionáveis, a estética purista clássica de que fala Paul Valéry é essa que domina os séculos XVII e XVIII, e tem um grande revival no XIX pós-revolução. É a estética dos mestres da tradição homérica, arquitetos da sensibilidade, como Racine, Lope de Vega e Camões. Ao basear-se não mais que na razão para sua meditação sobre a beleza, não é capaz de abranger, segundo Valéry, toda a condição humana, circunscrevendo-se ao que seja redutível à linguagem. Vivendo na imaginação enquanto pensava viver a ordem indubitável das coisas, vivendo um sonho enquanto pensava estar acordada, a Estética clássica não fala daquilo que crê falar – assunto sobre o qual ainda não é demonstrado que se possa dizer alguma coisa. De toda essa pretensão icárica, no entanto, não se pode dizer que não tenha sido imensamente criativa.

Apesar de todo malogro em defini-la (pois o que veio após as regras clássicas não foi senão o deleite de aproveitar o mistério), a Estética existe. O que é indefinível não é necessariamente negável. Tal como a vida e o tempo, ou como a luz, a água e a concha de prata que chamamos lua, para citar Wilde, a beleza existe, é uma das realidades desse mundo. Defini-la é outra história. O que resta, creio, é aproveitar os frutos criativos dessa caçada sem fim.

Alegoria da Escultura, Gustav Klimt, 1889.

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Prometeu Acorrentado é a segunda das peças que formam a trilogia da história do titã responsável por dar à humanidade o fogo e ensinar-lhe todas as artes. As outras duas, Prometeu Portador do Fogo e Prometeu Libertado, não chegaram senão em fragmentos aos dias de hoje.

Ésquilo é o mais antigo dos três grandes trágicos gregos. Confesso que é a primeira vez que o leio. Minhas experiências com esse teatro se resumem a quatro ou cinco peças de Eurípides e uma de Sófocles.

A peça começa com Prometeu sendo agrilhoado ao rochedo por Hefesto. Cumprindo sob protesto a incumbência, o deus do fogo e da forja é auxiliado pelas divindades menores Poder e Força, que o exortam a deixar de queixar-se. Prometeu lamenta sua desventura mas não se arrepende, e, em momento algum da obra, mesmo sob as admoestações das oceanides, do Oceano, de Io e de Hefesto, hesita em sua posição solidária aos humanos. Tendo lhes dado o fogo sagrado e sendo, por isso, condenado à prisão eterna nas rochas, Prometeu, um titã, sacrificou-se pelos mortais. Aos demais personagens da peça, parece faltar o senso de justiça do herói. O coro das oceanides o acompanha até o fim, mas não por partilhar da convicção de Prometeu (também acham que ele errou), mas por compaixão a sua pena.

Prometeu tem o dom de prever o futuro. Portanto, já sabia de sua penitência ao ajudar os homens. Mas sabia também que sua punição não seria a morte, uma vez que guardava o segredo da queda de Zeus do trono do Olimpo. O segredo era que Tétis, bela nereida, estaria destinada a dar à luz um filho de Zeus que o sobrepujaria em poder e o destronaria. Ao coro e aos outros personagens, Prometeu diz somente que Zeus cairá, o que é suficiente para que o deus dos deuses envie seu mensageiro, Hermes, à rocha onde está o titã para lhe arrancar a informação. Ao preço de ter devorado constantemente seu fígado pela águia fulva, Prometeu nada diz ao mensageiro e o trata com desprezo. Mesmo ameaçado de ser enviado ao Hades, é inamovível em sua decisão. Ao fim da obra, Prometeu é fulminado pelo raio divino e cai no Hades, junto das oceanides. Só será libertado por Héracles, gerações mais tarde. Mas dessa aventura, não dispomos.

É a própria Tétis quem revela a Zeus o segredo de sua queda, e o deus a dá em casamento a Peleu. Dessa união, nasce Aquiles, o mais poderoso dos mortais.

Edição: Jorge Zahar Editor, 1993. Tradução de Mário da Gama Kury.

 

Prometeu sendo acorrentado por Vulcano, Dirck van Baburen, 1623.

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