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Archive for Outubro, 2011

Voltaire Político – espelhos para príncipes de um novo tempo é parte da tese de doutorado do autor, dividida em três e lançada em conjunto com Voltaire Literário e Voltaire Historiador. Nesse livro, o professor Marcos Antônio analisa as obras históricas do filósofo, sobretudo História de Carlos XII, História da Rússia e O Século de Luís XIV buscando relações entre o pensamento voltairiano e a tradição dos espelhos de príncipe, antigo gênero literário dedicado à educação dos soberanos e delfins na arte de governar.

O príncipe é, de fato, o protagonista de grande parte dos escritos voltairianos, de modo que seja possível esboçar, se não uma teoria, uma concepção de monarca ideal para o iluminista.  Para formar uma ideia consistente do que seja esse monarca ideal, o autor percorre o pensamento político do filósofo presente em sua representação de Carlos XII da Suécia e de Pedro, o Grande, da Rússia. À comparação das imagens dos dois monarcas, torna-se bem claro ao leitor a transformação da ideia de grande homem procedida na época de Voltaire. O rei-herói, rei belicoso, enaltecido pela tradição, dá lugar ao rei-filósofo, déspota esclarecido, alvo da pedagogia voltairiana. Carlos XII é um herói, engrandecido por suas prodigiosas vitórias militares; Pedro, um grande soberano, um civilizador. Entre Carlos, espécie de Aquiles que luta pela própria imortalidade nos tempos, e Pedro, que, segundo a visão do filósofo, luta pelo progresso humano ao desenvolver o seu país, o modelo a ser seguido pelos reis esclarecidos é, naturalmente, o do russo. É o mesmo pensamento expresso em algumas das Cartas Filosóficas, segundo o qual estava-se na época em que o grande homem não era mais o guerreiro colecionador de feitos, mas o homem genial, criador de ideias.

A análise incide também sobre outros aspectos da historiografia de Voltaire e seu vínculo com a política. É um livro de interesse para quem gosta de teoria da História, Ciência Política clássica, Iluminismo e Classicismo. O mesmo vale para os outros dois volumes.

Passeio da Imperatriz Elizabeth pelas ruas nobres de São Petesburgo, Alexandre Benois, 1903.

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Meu plano de ser relapso com as disciplinas obrigatórias tem dado certo. Sem deixar de ler bastante, tenho lido muito pouco do que é necessário. Não estou preocupado com isso, embora, tendo revisto uns papéis dos primeiros dois anos de curso, eu tenha ficado um tantinho nostálgico daquele tempo épico. Mas não era sobre isso que eu ia falar. Ia falar que li coisas, uns doze livros sobre os quais não escrevi uma linha aqui. Era auto-engano de deixá-los numa pilhazinha para o blog. Portanto, desisti de registrar minhas impressões sobre alguns, e retornei-os humilhado à prateleira. Eram os acadêmicos, Koselleck, Romano e alguns outros, e também uns de literatura, como a Noite na Taverna e as Poesias do Bilac. Eles estavam lá desde julho me esperando. Mas alguns ficaram; em breve estarão por aqui.

Tinha de escrever um conto. Descobri que não consigo. Muito instantâneo, muito espontâneo, pareceu-me impraticável para quem escreve e reescreve uma frase mil vezes. Mas acredito que isso foi só impressão, e que, se não consigo, é porque não consigo e ponto. Não consigo escrever o conto, não consigo escrever o conto, não consigo escrever o conto. Se fosse uma oficina de épico em alexandrinos, seria mais fácil. Contos! Por que é tão difícil?  Mas que tem? Há tanta coisa no mundo! Aliás, é bom. Sinal que sirvo mais para ler que para escrever. E é melhor gastar lendo algo bom o tempo que se gastaria escrevendo algo ruim. Até pensei em um conto que mostraria essa situação da seguinte forma: uma pessoa é perseguida por um demônio, o nome dele é Fracasso; tenta fugir-lhe desesperadamente, e acha que consegue, quando se descobre perseguida por outro pior, chamado Ridículo. Moral da história: só em harmonia com o Fracasso que se evita o Ridículo. E essa seria minha despedida do gênero. Mas não fiz. Achei moralista demais, alguém poderia se ofender. Talvez faça, mas não fiz.

Pensei em outro conto. Um homem tipo Babbitt, um homem de metas, de objetivos, de Visão. Que pinta seu escritório com as cores de alguma filosofia oriental veiculada pela paraliteratura daquelas estrelas da administração. Daí, um dia, ele descobre que tem os pés virado para trás. Virados ao contrário mesmo. Mas ele não sabia disso antes? Nunca botou sapato? Sim, mas o fato é que, com a ideia de sempre pensar alto e olhar além, embora evidentemente conhecesse seus pés, nunca tinha visto os pés alheios. Então, quando se dá conta da anomalia, também percebe que todos o conhecem devido a ela. E sua confusão é tanta que desaprende a caminhar, atrapalha-se, tropeça, cai da escada e morre. Mas também achei muito moralista. Um provável candidato à categoria das porcarias. Não fiz.

Contos! Também pensei em um outro em que desaparecem umas crianças… mas ia ser gótico demais; ou um outro em que teria um herói, mas seria muito grego. Mas, pelo céus, minhas mãos embotadas para o conto não são sinal de falta de humildade; pelo contrário, acho que a autocrítica muito forte deve vir de algum complexo sentimento de inaptidão. Mas tudo bem, que fazer? Depois escrevo sobre os livrinhos que li. E viva a polca!

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