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Archive for the ‘Século XVIII’ Category

Não sei quem é o autor desta versão pós-93 do retrato de Maria Antonieta de Martin van Meytens, mas é alguém muito realista.

 

Retrato de Maria Antonieta, Martin van Meytens, 1767-68.

 

 

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É um livro muito famoso, de que eu ouvia falar desde os primeiros tempos da faculdade. Robert Darnton escreve de maneira descontraída e de forma a de forma a salientar o curioso do que analisa. Isso, certamente, é mais evidente em O grande massacre de gatos, mas em Boemia literária e revolução, no esforço que faz para seguir o rastro da subliteratura iluminista, sua abordagem um tanto antropológica faz do insólito que há na carreira dos candidatos à celebridade no XVIII o protagonista de sua narrativa.

A quem gosta da literatura do século XVIII, é uma leitura interessante por assinalar o fosso, não ideológico mas de perspectiva, entre o underground literário e a aristocracia do pensamento das luzes. Com essa distinção, Darnton pretende indicar uma ligação mais viva entre nossas ideias de Iluminismo e Revolução Francesa. As obras de autores que nunca alcançaram grande projeção, segundo o historiador, estão repletas de injúrias contra o seleto grupo dos philosophes, forjando mesmo uma guerra entre baixo e alto iluminismo, cenário onde proliferaram a pirataria e a falsificação, a panfletagem, a pornografia e a difamação características da baixa literatura. O ponto crucial do trabalho de Darnton é ver que foi nesse ódio que o espírito jacobino adquiriu seu caráter emocionalmente radical. O jacobinismo estaria mais proximamente relacionado à boemia literária do que à revolução de pensamento empreendida pelos grandes pensadores encabeçados por Voltaire, Diderot e d’Alembert. Assegura que cada campo merece seu lugar nas origens da Revolução, mas evidencia como o espírito revolucionário se deslocou para o submundo quando o alto iluminismo se institucionalizou.

Edição: São Paulo: Companhia das Letras, 1987. Tradução: Luís Carlos Borges.

 

Jean-Honoré Fragonard, Inspiração, 1769.

 

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Semana passada, li o tocante Devaneios do caminhante solitário, de Rousseau. São reflexões sobre temas diversos, escritas em um ritmo calmo e confessional sob a contemplação da natureza. Gostei mais dessa obra do que de qualquer outra que já li dele. Conhecia algumas obras políticas e os discursos, que já têm a força subjetiva do autor, mas nada comparável. A proposta dos Devaneios é que seu pensamento, desprendido de tudo, passeie por seu passado e pelo mundo como ele, ao refletir, caminhava por Paris.

Camille Corot, Solidão - lembrança de Vigen, Limousin, 1866.

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Voltaire Político – espelhos para príncipes de um novo tempo é parte da tese de doutorado do autor, dividida em três e lançada em conjunto com Voltaire Literário e Voltaire Historiador. Nesse livro, o professor Marcos Antônio analisa as obras históricas do filósofo, sobretudo História de Carlos XII, História da Rússia e O Século de Luís XIV buscando relações entre o pensamento voltairiano e a tradição dos espelhos de príncipe, antigo gênero literário dedicado à educação dos soberanos e delfins na arte de governar.

O príncipe é, de fato, o protagonista de grande parte dos escritos voltairianos, de modo que seja possível esboçar, se não uma teoria, uma concepção de monarca ideal para o iluminista.  Para formar uma ideia consistente do que seja esse monarca ideal, o autor percorre o pensamento político do filósofo presente em sua representação de Carlos XII da Suécia e de Pedro, o Grande, da Rússia. À comparação das imagens dos dois monarcas, torna-se bem claro ao leitor a transformação da ideia de grande homem procedida na época de Voltaire. O rei-herói, rei belicoso, enaltecido pela tradição, dá lugar ao rei-filósofo, déspota esclarecido, alvo da pedagogia voltairiana. Carlos XII é um herói, engrandecido por suas prodigiosas vitórias militares; Pedro, um grande soberano, um civilizador. Entre Carlos, espécie de Aquiles que luta pela própria imortalidade nos tempos, e Pedro, que, segundo a visão do filósofo, luta pelo progresso humano ao desenvolver o seu país, o modelo a ser seguido pelos reis esclarecidos é, naturalmente, o do russo. É o mesmo pensamento expresso em algumas das Cartas Filosóficas, segundo o qual estava-se na época em que o grande homem não era mais o guerreiro colecionador de feitos, mas o homem genial, criador de ideias.

A análise incide também sobre outros aspectos da historiografia de Voltaire e seu vínculo com a política. É um livro de interesse para quem gosta de teoria da História, Ciência Política clássica, Iluminismo e Classicismo. O mesmo vale para os outros dois volumes.

Passeio da Imperatriz Elizabeth pelas ruas nobres de São Petesburgo, Alexandre Benois, 1903.

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Pronunciado por Paul Valéry no Segundo Congresso Internacional de Estética e Ciências da Arte, em 1937, esse discurso traz uma reflexão sobre a condição científica da Estética e sobre a tradição clássica, a mais forte tentativa de definição das regras de enquadramento da beleza nas possibilidades humanas.

Posicionando-se como leigo no assunto, o filósofo e poeta lembra a importância, para uma ciência, que há nas opiniões de desconhecedores, pois elas permitem o retorno frutífero às intenções primeiras, aos dilemas fundamentais e aos fins mais básicos dessa ciência. A Estética teria o caractere maravilhoso de ser uma espécie de Ciência do Belo, capaz de estabelecer o que é preciso amar, o que é preciso odiar, aclamar ou destruir, capacitando o homem a produzir obras de arte de valor incontestável. Mas, certamente, a Estética também seria uma Ciência das Sensações, que, dizendo o que é sentir, seria capaz de revelar todos os segredos da arte.

De qualquer forma, para Valéry, para uma definição de Estética nos prestar algum serviço, ela deve resumir o objeto comum das idéias de beleza de todas as épocas. Porém, avaliar a matéria imensa de todas as técnicas humanas seria uma pretensão, um esforço vão, condenado ao fracasso pela simples impossibilidade de se conhecer empiricamente todo o objeto. Resta, então, uma divisão inevitável dos trabalhos do espírito: aqueles em que a moral ocupa um lugar fundamental, em que a ideia de belo é correspondente à de bom; e aqueles em que em que ela cede a um valor mais imponente.

A Estética nasceu, portanto, de uma especulação metafísica, a partir de um apetite filosófico pela beleza, capaz de reduzi-la a uma expressão coerente que se desenvolve em plano abstrato. Nem ao domínio da pura inteligência, nem ao da pura sensação, nem àquele da ação no mundo, as questões estéticas se referem a um novo campo, a que a razão dá um lugar, uma justificação e um significado, na ordem do mundo. Esse é o pensamento clássico (e neoclássico) acerca da beleza.

Porém, no domínio daquilo que é belo, é inevitável o encontro com o prazer. Não o prazer definível por sua utilidade ou pelo efeito negativo que seu excesso causa, mas um prazer de gênero específico, manifestado pela combinação da inteligência e da sensibilidade, indefinível e imensurável, que comunica uma ilusão de compreensão íntima do objeto que o causa. Excita a inteligência opondo-se à divisão de dificuldades cartesiana, pois impõe uma aliança de forma, conteúdo, pensamento, ação e paixão. O desejo, então, torna-se causa e consequência de si mesmo e a criação desprende-se de qualquer motivo ou busca de satisfação, tornando-se criar por criar.

O filósofo, o esteta classicista, se vê debruçado em tentativas de entender esse ímpeto, sistematizando-o. Esse prazer é, na verdade, a corsa fantástica que as escolas buscam capturar, e assim nascem, para Valéry, as regras da arte. Pureza, universalidade e lógica são, assim, virtudes metafísicas criadas para encerrar a presa mágica. Encerram, porém, não mais que paradoxos, dentre os quais o maior é a absurda separação entre a beleza e as belas coisas.

Para Paul Valéry, o grande fracasso da metafísica clássica reside no fato de o prazer ser individual e momentâneo, e, como toda sensação, não subsiste no universal. Como não há ciência do particular, a Estética guarda a decepção prévia de fazer descobertas dentro de um universo que lhe é cômodo, mas cuja unidade é rejeitada pelo real. Não há nada mais indefinível que o prazer, incerto e incomunicável. E essa sequência de negativas, única aproximação possível fora da metafísica, só nos diz que chamar uma obra de bela é dar-lhe valor de enigma.

Embora a Estética clássica não tenha percebido o valor desse enigma, e tenha tentado dissipá-lo por meio de regras canônicas, Paul Valéry diz que isso não significa que ela não tenha mais valor. Significa somente que, ao tomar as normas como um valor absoluto, o classicismo atribui às obras de arte uma importância imaginária. Acho isso extremamente importante, pois permite perceber de forma clara que, por mais que vivamos em um mundo moderno, podemos nos encantar com obras clássicas e classicistas. Porque, ao discordarmos das ideias antigas do que se espera de uma obra, ao considerarmos tudo isso metafísica, não precisamos subtrair todo seu valor: o fato de ela ter sido feita conforme preceitos que ultrapassamos não nos diz para a ignorarmos, mas para a vermos com olhos humanos, se estivermos abertos a tanto. Tal abertura, tais olhos, são, na verdade, raros. Difícil ver quem não faça das vanguardas do século passado gaiolas para se proteger.

Invenção que pensa seguir princípios inquestionáveis, a estética purista clássica de que fala Paul Valéry é essa que domina os séculos XVII e XVIII, e tem um grande revival no XIX pós-revolução. É a estética dos mestres da tradição homérica, arquitetos da sensibilidade, como Racine, Lope de Vega e Camões. Ao basear-se não mais que na razão para sua meditação sobre a beleza, não é capaz de abranger, segundo Valéry, toda a condição humana, circunscrevendo-se ao que seja redutível à linguagem. Vivendo na imaginação enquanto pensava viver a ordem indubitável das coisas, vivendo um sonho enquanto pensava estar acordada, a Estética clássica não fala daquilo que crê falar – assunto sobre o qual ainda não é demonstrado que se possa dizer alguma coisa. De toda essa pretensão icárica, no entanto, não se pode dizer que não tenha sido imensamente criativa.

Apesar de todo malogro em defini-la (pois o que veio após as regras clássicas não foi senão o deleite de aproveitar o mistério), a Estética existe. O que é indefinível não é necessariamente negável. Tal como a vida e o tempo, ou como a luz, a água e a concha de prata que chamamos lua, para citar Wilde, a beleza existe, é uma das realidades desse mundo. Defini-la é outra história. O que resta, creio, é aproveitar os frutos criativos dessa caçada sem fim.

Alegoria da Escultura, Gustav Klimt, 1889.

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O Dicionário Filosófico parece uma confortável conversa, sobre os mais diversos temas, com uma mente brilhante. Apesar de ser dito, no prefácio do autor, que não se trata de um livro para ser lido de uma vez só, decidi pegá-lo na íntegra para preservar esse contraste entre assuntos e perceber de maneira mais forte o ecletismo de sua mente genial. Somente por isso, pude perceber que a obra fora escrita na ordem alfabética em que fora editada, o que torna muito divertidas as referências entre um verbete e outro, como esta: É difícil passar das pessoas que se beijam àquelas se devoram (verbete Antropófagos, que vem após o verbete Amor).

Ao contrário do que parece, o Dictionnaire Philosophique não pode ser tomado como uma boa síntese do pensamento voltairiano. Acredito que seus Contos levam muita vantagem no quesito de abrangência de idéias. O Dicionário é mais uma conversa organizada por tópicos, bom para esclarecer dúvidas objetivas, imediatas (como: Voltaire acreditava em Deus? Voltaire era monarquista? etc), mas fraco para formar na mente do leitor uma ideia ampla da visão de mundo do filósofo. Para tanto, os Contos continuam sendo minha primeira sugestão.

Mas é claro que o Dicionário tem seus méritos. O mais importante deles é oferecer ao interessado um leque de respostas a perguntas que ele nem tinha pensado em formular ao autor. O verbete sobre os antropófagos, citado, é um desses exemplos. Também aquele sobre o amor, aquele sobre a beleza, sobre o luxo, sobre inundações e um, notável, sobre crítica literária. Futuramente, eu talvez escreva sobre os que achei mais interessantes. O fato é que essas pautas arbitrárias são questões sobre as quais não há espaço em outras obras do autor. O Dicionário Filosófico é um livro onde se puderam colocar ideias sobre absolutamente qualquer tema, o que permite ver o gênio de Voltaire se debruçar, muitas vezes de modo desleixado, sobre assuntos insólitos. E, não raro, desse acaso saem pensamentos bastante incisivos, coisa característica da sabedoria subversora da época.

No entanto, o Dicionário não é invertebrado. Apesar de os verbetes curiosos serem um atrativo pelo qual já vale a leitura, há aqueles principais, que compõem nitidamente o motivo pelo qual a obra tornou-se uma das mais valorizadas pela posteridade. São eles: Certeza, Destino, Deus, Igualdade, Fanatismo, Idolatria, Liberdade, Religião, Superstição, Tolerância, Tirania. Dentro desses temas de suma importância para o pensamento iluminista, não encontramos, no Dicionário Filosófico, a essência da ideia que deles fazia o século. Encontramos respostas a perguntas pontuais, que, juntas, podem formar um esboço, altamente comprometido, do que seria o pensamento corrente. Comprometido porque, embora Voltaire pretenda, com a obra, um catecismo do esclarecimento, mal consegue um catecismo voltairiano. A enxurrada de ideias que acomete o leitor a cada um desses tensos verbetes não é proporcional à forma pretensamente preceitual da obra. Muitos desses verbetes, como aquele sobre idolatria, fazem uma análise histórica relativamente longa salpicada de veneno anticlerical. Portanto, muitos verbetes são antes ensaios que definições lapidares.

A enxurrada de ideias, porém, revela também conceituações muito hábeis. E, se a escrita ensaística parece imperar em alguns tópicos, em outros o filósofo desenvolve um raciocínio que sabe muito bem de onde parte e onde chega, fazendo uso da lógica corrosiva caracteristicamente sua. Preconceito é uma opinião sem julgamento (verbete Preconceitos); Quase tudo o que está além da adoração de um ser supremo e da submissão íntima a suas ordens eternas é superstição (verbete Superstição). Partindo de definições tais, quase axiomáticas, o filósofo traça seu curso típico e expõe nuas as igrejas cristãs e o carrossel de suas incoerências.

Certamente, esses verbetes mais estrondosos são os que mais chamam atenção. Mas não ocupam, fisicamente, a maior parte do livro. A chamada crítica religiosa é a categoria dominante do Dicionário. Dos 117 verbetes, aproximadamente 45 são bíblicos, e, ademais, são os que consomem maior número de páginas. De qualquer modo, a análise rigorosa, criteriosa, dos fenômenos cristãos estende-se por toda obra, de modo que a pluralidade dos verbetes é um pretexto para se criticar por todos os lados imagináveis a antifilosofia religiosa.

O lado voltairiano menos aceitável ao leitor muito escrupuloso surge então: um tal empenho na crítica bíblica resulta em fortes chicotadas aos judeus em geral. O povo judeu, para Voltaire, era o mais medíocre dos povos. Jamais contribuiu à civilização, sua cultura é uma cópia das circunvizinhas e da grega. Sua ocupação da Palestina é contrária ao direito natural do povo filisteu. Jamais colaborou ao desenvolvimento dos Estados senão por meio de empréstimos usurários. O ataque mordaz aos judeus e à cultura judaica atravessa toda obra. Com isso, costuma-se posicionar Voltaire entre os pais do antissemitismo moderno. A tal afirmação, eu responderia: ‘Com certeza Voltaire não gostava de judeus – é preciso ser cego para não vê-lo. Mas seu pensamento não tem relação confiável com as doutrinas antissemitas posteriores, porque Voltaire jamais falou em nome da perseguição; fazê-lo seria abrir mão do núcleo de sua filosofia: a tolerância. Então, apesar de toda crítica ao povo judeu, o filósofo nunca deixaria de achar absurda sua perseguição’.

Apenas mais uma curiosidade. O artigo Igualdade traz o raciocínio de que (literalmente) o gênero humano, tal como é, não pode subsistir a menos que haja uma infinidade de homens úteis que nada possuem, para chegar à conclusão de que a igualdade é, ao mesmo tempo, a coisa mais natural e a mais artificial do mundo. Marx, parece-me, é grande tributário de Voltaire.

Edição: Dictionnaire Philosophique. Éditions Garnier Frères, Paris, s/d. Com introdução, variantes e notas pelo intrometido Julien Benda.

 

Jean-Baptiste Le Vachez, L'homme unique a tout age. 1778.

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Aqui um pequeno texto de Paul Hazard sobre a revolta de Lessing contra o classicismo francês, durante a curta existência de seu periódico Dramaturgia (1767 – 1769). O autor de Laocoonte considerava o teatro francês uma subversão das regras aristotélicas, o que fazia dele uma mentira, um disparate – ele não existia. Fria, artificial, convencional, a tragédia clássica, no entanto, nunca morria. Quando o Teatro de Hamburgo teve, por falta de repertório alemão e, quem sabe, por necessidade de dinheiro, de recorrer aos clássicos franceses, Lessing, guia e crítico literário do teatro, procurou expor todas as razões pelas quais o equívoco chamado teatro francês não deveria ser aplaudido. Não satisfeito em combater Voltaire, que era quem mais fazia sucesso então, ergueu-se contra um dos mais importantes pilares da cultura francesa – Corneille. Ao inventor da tragédia francesa, o crítico opunha Shakespeare. A guerra contra o gênio francês era como que a de um jardim selvagem contra um knot garden.

Jean-Antoine Watteau, L'amour au théâtre français.

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