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Archive for the ‘Diderot’ Category

A Religiosa é um pequeno romance, publicado em 1796, doze anos após a morte do autor, inspirado, pelo que sei, em certo fato ocorrido na década de 1750. Trata-se de uma religiosa que protesta contra seus votos, e, após tentá-los resilir formalmente,  é submetida a um carrossel de humilhações, castigos e clausuras, em mais de um convento. Resolve, então, levar a público suas angústias através de um relato de sua vida, que usa para apelar a um marquês por intervenção a seu favor junto ao Parlamento de Paris, ou por dar-lhe amparo se fosse necessário fugir. O livro nada mais é que o relato da própria religiosa, dirigido ao marquês de Croismare, prefaciado com a troca de correspondências entre os dois e arrematado com um post-scriptum que, embora busque finalizar o relato, naturalmente não termina a história da pobre moça.

Ficção ou não, o trajeto entre a vida factível de Marguerite Delamarre e a história de Suzanne Simonin, personagem do romance, é difícil de percorrer: sabe-se que Mlle. Delamarre correspondeu-se com o marquês de Croismare, e que este falou em seu favor no Parlamento em 58; o relato da personagem de Diderot, Suzanne, é, portanto, inspirado na história de Marguerite e dirigido ao mesmo marquês, que era amigo do autor. Há detalhes menos importantes, que deixo de lado. O fato é que a identificação para lá de irônica, entre a realidade mascarada e ficção sincera, identificação característica da época, torna o ingênuo trabalho de descobrir a realidade por trás do romance quase nulo. Há uma denúncia evidente no livro de Diderot, sendo ele baseado ou não na vida de uma religiosa real. E, mesmo não sendo Suzanne Simonin mais que uma criação da pena do mesmo homem que introduziu na França a crítica de arte, é fato que ela, ainda que não completamente, existiu ao menos em parte na vida de cada religiosa mantida contra a vontade nos conventos antes, durante e depois de Diderot.

A denúncia do romance é a do vício generalizado nos conventos, representados como uma prisão onde o convívio repetido e muito próximo com outras condenadas acaba levando às formas mais imorais de se passar o tempo – seja abusando do rigor das penitências, seja abusando da inocência das ingênuas. Essa denúncia está contida em outra, maior, que é a do confinamento contra a vontade. Suzanne, constrangida pelos pais a fazer os votos, mesmo após comunicar publicamente que não quer fazer de sua vida uma penitência, que não deseja devotá-la a Jesus Cristo, é levada sob protesto ao convento, onde passa anos sem se conformar a levar uma vida para a qual não tem vocação. A falta de escrúpulos do jogo de interesses do qual Suzanne é vítima é outra dimensão importante da crítica de Diderot: liberdade, razão e direito – as três palavras que resumem o pensamento iluminista – são tudo o que falta na vida da religiosa.

Malgrado todo ataque à instituição católica, com a virulência bem característica do círculo enciclopedista, sua escrita é mais bonita que corrosiva. A ironia de Diderot, nesse romance, é muito fraca, seu veneno é muito evidente para fazer par aos textos de um Voltaire. O sarcasmo, oniprese

nte nessa literatura, é muito pouco sutil em Diderot, de modo que é sempre com pouca surpresa que recebemos as situações que eram para nos afetar de modo cômico ou trágico. Escreve belamente, a certa altura lembra muito Defoe; por isso, o caráter simultaneamente venenoso e belicoso dos contos e novelas das Luzes parece um tanto estrangeiro a seu estilo. Ficou-me uma espécie de promessa de que os escritos filosóficos, os diálogos e a crítica de arte do autor valem muito mais que sua prosa ficcional.

Pablo Picasso, Denis Diderot, 1954.

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