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Archive for the ‘Século XIX’ Category

Essa pequena obra, mais conhecida como O pintor da vida moderna, é um escrito de Baudelaire publicado no Figaro, em 1863, sobre o desenhista Constantin Guys. Além de inspirador e inteligente, o ensaio tem aquela carga de texto fundador da estética moderna, de que Baudelaire é autor essencial. Embora eu não conheça muito de modernismo, acredito ser este texto um dos primeiros a apresentar essa sensibilidade pelo artificial e urbano que, visto tratar-se de um ensaio sobre outro artista, já se vinha espalhando.

Certa vez, um professor meu comentou que há quatro autores fundamentais da cultura moderna: Baudelaire, Marx, Freud e Darwin. Acredito ser verdade. Como que quatro marcos do pensamento que esteve em pleno vigor até as últimas décadas do século passado, mas que inauguraram, entreviram, ou sintetizaram – na verdade, tanto faz – cada um, uma ideia genial, cuja longevidade é assegurada por serem não só substratos de um tempo, mas novas maneiras de ver. E Baudelaire, nesse ensaio, parece ter plena consciência disso. Achei curioso como ele mesmo parece incumbir-se de estar à frente da tradição, e feliz por encontrar em Constantin Guys um desenhista desse novo sentimento.

Edição: Paz e Terra, 1996. Sem indicação de tradutor. Organizador: Teixeira Coelho.

 

Constantin Guys, Carruagem e três cavalheiros em…, 185-.

 

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Cinco obras que li no fim do ano passado, que deixo aqui para não esquecer de sua existência caso um dia me interesse mais seriamente por esse assunto fascinante.

Romantismo e revolta, Jacob Leib Talmon: Erudita explanação que contextualiza a postura romântica na corrente das revoluções na Europa entre o fim do XVIII e início do XIX. Trata o romantismo pelo aspecto revolucionário e localiza na França de 1848 a breve concretização da utopia romântica. Apesar das notas de rodapé intrometidas do tradutor, a edição é muito boa pelas imagens. Focos histórico e francês. Verbo, 1967.

Conservadorismo romântico: origem do totalitarismo, Roberto Romano: Muito bom livro que analisa obras filosóficas do romantismo e do pré-romantismo alemães de um ponto de vista que relacione sua nostalgia pela unidade a um pensamento político antidemocrático. Tem aproximações interessantes entre filosofia e história, e uma abordagem criativa da teoria das cores de Goethe. A primeira parte, sobre Hegel e a história solar, também é ótima. Focos filosófico e alemão. Brasiliense, 1981.

Aspectos filosóficos do romantismo, Gerd Bornheim: Livro pequenino mas muito instrutivo sobre a filosofia dos românticos alemães. Aborda de maneira breve uma grande quantidade de assuntos acerca dos quais debruçou-se o pensamento da época. Focos filosófico e alemão. Iel, 1959.

Introdução ao romantismo, Henri Peyre: Obra erudita e de leitura fácil e rica, é uma das melhores dessa listinha. Henri Peyre fala sobre as raízes da literatura romântica no XVIII, seu desenvolvimento na primeira metade do XIX e da sobrevivência de seu gesto na segunda metade do século e mesmo no XX. É um ótimo livro para se tomar conhecimento de escritores menos célebres. Focos literário e francês. Europa-América, 1975.

O romantismo, J. Guinsburg (org.): A obra mais importante da lista em termos de introdução geral ao assunto. Trata-se de uma coletânea de ensaios de nomes como Otto Maria Carpeaux, Anatol Rosenfeld, Bruno Kiefer e Alfredo Bosi sobre diferentes aspectos do movimento, das artes plásticas à música, com o mérito de abordar também a diversidade nacional dos romantismos. Perspectiva, 1999.

 

Nils Blommér, Fadas no prado, 1850.

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Oscar Wilde é, para mim, um daqueles escritores pelos quais eu me converteria apenas para agradecer a Deus por ter existido gênio tal. Antes de ler esses contos e novelas, tinha tido o prazer ler aos 15 e reler aos 20 apenas O Retrato de Dorian Gray, seu único romance. Foi um livro muito que marcou minha adolescência quando li pela primeira vez, e que me surpreendeu mais ainda quando reli.

Quanto a Contos e Novelas, é um livro belíssimo. Claro que é belíssimo, pois o trunfo de Wilde é buscar sempre a beleza. Não o conhecimento, não a glória, não o humor (apesar de toda ironia), mas a beleza pura e harmônica dos simbolistas e do art nouveau. Não sei e não estou interessado em saber onde colocam Wilde os estudantes de literatura, mas acredito que seja num lugar aproximado de onde colocam Klimt os estudantes de artes plásticas. Lendo esses contos, lembrei de Tchecov, de quando disse que o contista eslavo era um pintor mais que um escritor; Wilde também, sem dúvida, é um grande manipulador de cores. Compõe paisagens magníficas, coloridas, a maioria dos textos selecionados no volume tem a atmosfera de um conto de fadas, os elementos de fábula incrementam sua beleza quase mística.

Como nas fábulas, alguns contos têm uma lição moral. Outros, não (não que eu tenha notado). Quase todos, no entanto, parecem se passar num lugar imaginário, fora da jurisdição prosaica do homem (O pescador e sua alma, O menino da estrela, O príncipe feliz, O rouxinol e a rosa e outros), como o bosque da peça de Shakespeare Sonho de uma Noite de Verão, ou numa versão maravilhosa de um cenário existente, como um quadro que realça as cores do mistério na representação de uma paisagem conhecida (O fantasma de Canterville, O aniversário da infanta). Dois contos se assemelham muito ao ambiente de O Retrato de Dorian Gray (A esfinge sem segredo e O crime de lorde Arthur Savile), em que os personagens da sociedade são perturbados por qualquer coisa de fantástico. Todos os textos, no entanto, Wilde pinta com primor cada detalhe, dando os limites de cada cor e seu devido tom.

O melhor conto: O aniversário da infanta – realmente impressionante; o pior: O fantasma de Canterville – em comparação com os outros, fica para trás, talvez por sua proposta humorística, que, para mim, não combina com o autor.

Edição: Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2007. Tradução de Brenno Silveira.

 

Gustav Klimt, A Virgem, 1913.

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Stendhal é mais famoso por O Vermelho e o Negro, Napoleão e Do Amor, nenhum dos quais li ainda. Peguei Crônicas Italianas, que me ganhou pela curiosidade desperatada pelo título.

As crônicas contidas no pequeno volume são de autoria de Stendhal e têm como personagens, sobretudo, figuras reais. Foram publicadas em diversos periódicos e reunidas postumamente por seu primo Romain Colomb. Stendhal foi cônsul na Itália, quando teve ocasião de ler vasto material de história das cidades da península, tanto impresso quanto manuscrito. Sabe-se que mandou copiar muitas histórias dos séculos XVI e XVII encontradas em suas pesquisas, material que resultou em quatorze volumes hoje guardados na BNF.

As Crônicas Italianas são, portanto, escritos seus inspirados por essa busca por conhecimento dos costumes de uma época que o apaixonou, tendo em vista seus outros escritos sobre o Renascimento italiano e suas palavras nas próprias crônicas.  São seis, as crônicas, quatro das quais se passam no século XVI, uma no XVIII e uma no XIX. Relatos curtos de histórias envolvendo paixão, intriga e morte nas cortes papais. Assassinatos encomendados, emboscadas e suicídios são constantes. Damas e princesas de beleza sobre-humana prometidas a nobres que não amavam, príncipes celerados, cardeais poderosos, bandoleiros e aventureiros de alma heroica são os personagens com que o autor constrói esse cenário de mascaradas. Mas o destaque são os introitos, onde Stendhal faz pequenas ponderações tangentes ao assunto da crônica, como em Os Cenci, em que introduz algumas ideias sobre o mito de Don Juan, e em A Duquesa de Palliano, em que fala brevemente sobre paixão na Itália.

As crônicas reunidas no livro são as seguintes: A Abadessa de Castro, Vitória Accoramboni, Os Cenci, A Duquesa de Palliano, San Francesco a Ripa, Vanina Vanini.

Edição: Otto Pierre Editores, São Paulo; Amigos do Livro, Lisboa; Éditions Ferni, Paris, s/d (197-). Sem indicação de tradutor (tradução revista por R. Correia).

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Era o último dos grandes romances de Machado que faltava ler. Restam aqueles menos conhecidos, como Helena, etc – mas estes não tenho pressa de pegar. Memórias Póstumas de Brás Cubas foi o romance de Machado que mais gostei, junto com Quincas Borba. Têm muito em comum, na verdade. Dos dois, gosto muito é da comicidade, que, porque o autor é um gênio, em nada prejudica a força intelectual da obra, outro ponto forte. É um humor inteligente que acredito dever muito a Voltaire, com uma ironia às vezes até cruel, mas que, impressão minha, tem certa melancolia face ao destino que tomam as coisas. Apesar de bem-humorada, achei Memórias Póstumas uma obra extremamente triste.

 

Goustave Courbet, Após o jantar, 1849.

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Cyrano de Bergerac é uma bela peça escrita em verso por Edmond Rostand em 1897. A tradução que li foi a de Carlos Porto Carreiro, comentada por Ivo Barroso aqui. Cyrano é um personagem realmente fantástico, espadachim e poeta, cômico e impressionante. Tem um nariz de tamanho anormal e um temperamento extravagante. Abusando da capa e do chapéu com penas, está na sessão dos heróis fora de moda, enterrado muito mais fundo que os três mosqueteiros e Robin Hood.

Cyrano existiu de verdade. O que Rostand fez, assim como alguns outros autores, foi teatralizar sua vida por demais agitada e polêmica. É um desses personagens históricos cuja vida na literatura torna difícil de se desenlaçar a verdade da fantasia. O fato é que escreveu peças, poemas e dois livros cômicos de história – aqui, uma de suas peças.

O Cyrano de Rostand, apaixonado e galhofeiro, faz coro com outros personagens muito interessantes, como o pasteleiro-poeta Ragueneau. O número de personagens é mesmo muito grande, devia ser uma peça barulhenta de se assistir. Pelo menos, é barulhenta de se ler. Acima de tudo, é um espetáculo, um desfile fascinante de tipos da época.

 

Anônimo, Cyrano de Bergerac, século XVII.

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Um belo romance. Li por sugestão, e foi o melhor romance que peguei este ano, até agora. Arrependo-me, na verdade, de não tê-lo lido mais cedo, é o tipo de livro de que eu teria gostado muito na época do colégio. Também gostaria de tê-lo lido antes de Persuasão, que li há cerca de um ano, porque Persuasão não me deixou quase nenhuma lembrança, enquanto sei que este aqui deixará bastantes. Agora que já sei mais ou menos ler Jane Austen, tenho de voltar a Persuasão, pois, sendo o último romance dela, é impossível que não seja especial.

A primeira vez que ouvi falar em Orgulho e Preconceito foi quando eu era pequeno, em um filme, que não lembro o nome mas sei que eram desses que davam à tarde, em que uma mulher perguntava o que a garotinha estava lendo e ela dizia o nome do livro, e elas falavam qualquer coisa sobre. Não sei por que lembro disso. Depois, só voltei a ouvir falar há uns três anos, quando a Lana leu e foi arrebatada pela autora.

A principal diferença entre Orgulho e Preconceito e os demais romances de que gosto é que ele se passa todo no circuito das opiniões que um personagem tem do outro, o que me causou certa claustrofobia no início. Mas depois, quando se pega o ritmo, é fácil ver que no seu estilo há uma beleza e uma inteligência inteiramente diferentes daquelas de seus coetâneos. Pelo menos dos que conheço.

O forte da obra são os diálogos. Todas as falas são um primor. Certamente, a boa tradução ajudou nisso, mas creio que faça parte mesmo do estilo da autora. Em uma história em que os sentimentos são a todo tempo constrangidos pela respeitabilidade, pelo crédito e descrédito e pelas impressões, os diálogos merecem um cuidado especial. É por meio das palavras de seus personagens que eles me ficaram marcados. E é desnecessário dizer que meu personagem favorito é o pai de Elizabeth, um senhor de opiniões extravagantes.

O fraco, para mim, é o baixo recurso estético da narrativa. Mas isso também é coisa de seu estilo de escrever, e do meu de ler. Em poucas passagens, fora dos diálogos, parei e disse: nossa!. Penso que eu não conseguiria ler várias obras de Austen seguidas pelo fraco apelo poético (supondo que todas sejam como esta). E também a inocência de certas coisas da história. Mas, na verdade, nada disso são defeitos, são antes predicados, e fazem parte de sua beleza rara.

Edição: Publifolha, 1998. Trad.: Lúcio Cardoso.

John Constable, Damas da família de Mr. William Mason de Colchester, 1802-06.

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