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Archive for Maio, 2011

Contos, Tchecov

Começando com dois recuos: Primeiro, minhas poucas referências em literatura russa são meia dúzia de obras de Dostoiévsky e Tolstói, além de duas de Nabokov, de modo que não posso julgar competentemente o Tchecov senão pelo meu próprio gosto. Segundo, demorei para escrever sobre ele; um pouco das impressões se apagou, embora tão fortes tenham sido que, para escrever sobre essa leitura, não preciso me fiar somente em lembranças, mas bastante em sentimentos.

O volume que peguei continha os contos La Cigale, Sonhos, O Beijo, Varka, O Buraco e A Estepe, além de um pequeno ensaio sobre literatura russa, de autoria de Henrique de Campos, prefaciando o livro. A tradução dos contos é de Costa Neves. Edição antiga, 1952, da Jackson.

Sonhos, Varka e A Estepe foram os que mais me impressionaram. Mais artista que Dostoiévsky e Tolstói (sem pôr em questão a qualidade destes como grande pensador e grande literato, respectivamente), Tchecov é uma espécie de pintor. Em A Estepe (não importa se conto ou novela) narrativa de uma viagem pelas pradarias ucranianas, a natureza é tão viva quanto os personagens, e estes são como que parte da paisagem. No rapidíssimo Varka, uma situação insuportável torna-se apreciável tal é a precisão com que é apresentada. Isso talvez resida em um cuidado minucioso com a economia verbal, como especula Henrique de Campos em seu estudo; em Tchecov, nada mais que o preciso – todos os adjetivos desnecessários são suprimidos.  Não se fica numa piscina de qualidades e defeitos; ao contrário, Tchecov conta com a imaginação do leitor. Ao que me parece, é de uma prudência não menos elegante que sensível. A essa economia perspicaz, acrescente-se um certo desapego ao enredo (exceto, creio, em La Cigale). Em Sonhos, dois soldados levam um homem pela estrada a uma cidade que nunca chega, e, nessa espécie de caminho para lugar nenhum, aos poucos, falam de si.

Não há uma mensagem, uma idéia nem uma denúncia que seja claramente identificável nesses contos. Nem o propósito de mostrar a sociedade como ela é, apontar seus vícios, idealizar suas virtudes, achá-la boa, ruim, desesperadora ou grandiosa. Não vi, com certeza, nada disso. Por isso, achei um texto tão sedutor. Sedutor e marcante. Porque a beleza de Tchecov não é supérflua, descartável, ela está em tudo, ela liga as coisas numa espécie de totalidade, que ora é plácida, ora é furiosa, ora é inocente, ora é majestosa. Tchecov é um pintor, seus contos são quadros. Leia A Estepe e diga que não é verdade.

Kazimir Malevich. Boulevard. 1903.

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