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Archive for the ‘Ainda não li’ Category

Meu plano de ser relapso com as disciplinas obrigatórias tem dado certo. Sem deixar de ler bastante, tenho lido muito pouco do que é necessário. Não estou preocupado com isso, embora, tendo revisto uns papéis dos primeiros dois anos de curso, eu tenha ficado um tantinho nostálgico daquele tempo épico. Mas não era sobre isso que eu ia falar. Ia falar que li coisas, uns doze livros sobre os quais não escrevi uma linha aqui. Era auto-engano de deixá-los numa pilhazinha para o blog. Portanto, desisti de registrar minhas impressões sobre alguns, e retornei-os humilhado à prateleira. Eram os acadêmicos, Koselleck, Romano e alguns outros, e também uns de literatura, como a Noite na Taverna e as Poesias do Bilac. Eles estavam lá desde julho me esperando. Mas alguns ficaram; em breve estarão por aqui.

Tinha de escrever um conto. Descobri que não consigo. Muito instantâneo, muito espontâneo, pareceu-me impraticável para quem escreve e reescreve uma frase mil vezes. Mas acredito que isso foi só impressão, e que, se não consigo, é porque não consigo e ponto. Não consigo escrever o conto, não consigo escrever o conto, não consigo escrever o conto. Se fosse uma oficina de épico em alexandrinos, seria mais fácil. Contos! Por que é tão difícil?  Mas que tem? Há tanta coisa no mundo! Aliás, é bom. Sinal que sirvo mais para ler que para escrever. E é melhor gastar lendo algo bom o tempo que se gastaria escrevendo algo ruim. Até pensei em um conto que mostraria essa situação da seguinte forma: uma pessoa é perseguida por um demônio, o nome dele é Fracasso; tenta fugir-lhe desesperadamente, e acha que consegue, quando se descobre perseguida por outro pior, chamado Ridículo. Moral da história: só em harmonia com o Fracasso que se evita o Ridículo. E essa seria minha despedida do gênero. Mas não fiz. Achei moralista demais, alguém poderia se ofender. Talvez faça, mas não fiz.

Pensei em outro conto. Um homem tipo Babbitt, um homem de metas, de objetivos, de Visão. Que pinta seu escritório com as cores de alguma filosofia oriental veiculada pela paraliteratura daquelas estrelas da administração. Daí, um dia, ele descobre que tem os pés virado para trás. Virados ao contrário mesmo. Mas ele não sabia disso antes? Nunca botou sapato? Sim, mas o fato é que, com a ideia de sempre pensar alto e olhar além, embora evidentemente conhecesse seus pés, nunca tinha visto os pés alheios. Então, quando se dá conta da anomalia, também percebe que todos o conhecem devido a ela. E sua confusão é tanta que desaprende a caminhar, atrapalha-se, tropeça, cai da escada e morre. Mas também achei muito moralista. Um provável candidato à categoria das porcarias. Não fiz.

Contos! Também pensei em um outro em que desaparecem umas crianças… mas ia ser gótico demais; ou um outro em que teria um herói, mas seria muito grego. Mas, pelo céus, minhas mãos embotadas para o conto não são sinal de falta de humildade; pelo contrário, acho que a autocrítica muito forte deve vir de algum complexo sentimento de inaptidão. Mas tudo bem, que fazer? Depois escrevo sobre os livrinhos que li. E viva a polca!

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Porque é bom pra caramba. Aqui, um texto de Antônio Xerxenesky em que diz aquele que acredito ser o único motivo razoável para se preferir um livro contemporâneo a um clássico.

Porque dizer que uma obra escrita hoje, e, portanto, intimamente relacionada às questões atuais, participa mais do espírito do nosso tempo é algo tão enganoso quanto pensar que, lendo Eurípides, você aprenderá somente sobre a sensibilidade grega. Preferir o livro contemporâneo porque ele é mais contemporâneo é como preferir o grego porque ele é mais grego. Grande engano; o mesmo equívoco do classicista tradicional, mas com outro referencial.

Acontece que, creio, não há como não ser contemporâneo, ou ser menos contemporâneo. As leituras que eu fizer, as opiniões que eu sustentar sobre literatura ou qualquer arte, desde que sejam sinceras, serão inevitavelmente contemporâneas. Ainda que eu varra (ou pense varrer, não importa) o século XX dos meus horizontes artísticos. Dizer o contrário seria ignorar uma espécie de imperativo de ruptura que todos têm em sua formação. Pode-se romper com qualquer coisa, e, necessariamente, tem de se romper com alguma coisa.  Acho, na verdade, que essa independência é que define ser contemporâneo (em qualquer época), e, por isso, ler clássicos em vez de obras de hoje pode ser um gesto indubitavelmente contemporâneo. Certamente, não quero dizer que seja ruim ler os livros escritos aqui e hoje. Evidentemente, além de bom, isso é importante para se manter em contato com o que acontece lá fora. O que digo é que, ao cabo, todos partem do zero, e são contemporâneos. Descobrir o que têm em comum um classicista de hoje e um amante da literatura atual é descobrir o verdadeiro caráter de nossa contemporaneidade.

E, se é uma independência em relação ao passado que caracteriza o contemporâneo, o único jeito de não ser contemporâneo é ser dependente de uma forma. No caso, um classicista que ama o clássico por ser clássico – mas, também, um modernista que ama o moderno porque é moderno. O fetichismo classicista é equivalente ao fetichismo contemporâneo.

Infelizmente, não li ainda o livro obrigatório de I. Calvino sobre os clássicos. Mas queria deixar aqui algumas razões que me fariam tomar o partido restaurador nessa guerra eterna entre presente e passado. Na verdade, sou um semianalfabeto em termos de literatura do século XX – e me penitencio por isso -, portanto, aqui estão somente motivos que admiro nos clássicos – e não predicados pelos quais acredito serem eles melhores que os modernos:

– Sabedoria. Ridículo, tanto mais quando se fala de arte. Mas há sabedoria, assim como há beleza. Diferentemente sábio, cada clássico brinda o leitor com uma visão de mundo que certamente o influenciará. Não sei, simplesmente acho o dia mais bonito quando leio Walter Scott. Alguns são mais extremos, mesmo perversos, outros mais moralistas. Não importa. Sabedoria é uma espécie de felicidade intelectual. Mas talvez seja só hipocrisia.

– Inteligência. Dificilmente, você encontrará um erro lógico e grave em um grande clássico. E, se você encontra, é muito provável que seja você quem não tenha entendido direito. Ademais, em clássicos, tenho quase sempre o prazer descontente de ver uma força intelectual que certa nostalgia inerente me faz achar inigualável.

– Beleza. E criatividade. Ler Racine, na fronteira do fetichismo… Ah, melhor não dizer nada sobre o que, se dissesse pouco, seria pior.

– E, sobretudo – na verdade, esse é o único motivo de que nunca duvidei -, a maioria dos clássicos é boa pra caramba.

Turner, Arundel Castle, with Rainbow, c. 1824.

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