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Archive for the ‘Álvares de Azevedo’ Category

Muitas vezes, as imagens que formamos na nossa cabecinha durante o colégio influenciam as razões com que justificamos nosso desgosto por certos autores. O mais prejudicado com isso é José de Alencar; o mais beneficiado, Machado de Assis. É claro que, bem como o professor de História tende a ensinar com mais entusiasmo aquilo de que gosta mais, o professor de literatura reproduz menos opiniões congeladas sobre os autores que mais gosta; acredito, portanto, que tive o azar de ter, no colégio, somente professores de literatura que não gostavam de autor algum. Ou melhor: professores cujo gosto era determinado pela conveniência de estereótipos dados. Pude, pelo menos, não deixar que tais imagens tomassem conta do meu gosto e, desde que comecei a ler sistematicamente, guardei meu juízo sobre algum autor para somente depois da leitura de pelo menos um livro.

Li cedo Álvares de Azevedo. Tinha 15 quando peguei A Lira dos Vinte Anos, um dia após ter tido aula sobre romantismo. Minha expectativa por tristeza e solidão deu de cara com a intensidade de paixões gigantes, com o lirismo de sonetos lindos. Naturalmente, nada do que eu queria. Mais tarde, no entanto, eu perceberia que lera um livro muito bom, e hoje tenho vontade de relê-lo. Isso serviu para eu saber, de início, que os autores são muito maiores do que aquilo que se pode dizer sobre eles.

E, na verdade, com a leitura de Macário, que fiz só agora, alguns anos depois, vejo: que é esse o poeta de que falava minha professora; que era esse o livro que eu estava procurando quando peguei a Lira; que era a Lira o que eu procurava agora quando peguei Macário.

De qualquer forma, Macário é um ótimo texto. É o decadentismo puro, que não espera mais nada do mundo. De alma gelada, mas de palavras tensas, o personagem ultrapassou há muito a fragilidade de Werther, suicidou em espírito e fez-se amigo do Diabo. Se eu tivesse qualquer propriedade para falar de Fausto, aqui viria uma comparação. Mas o fato é que a sensibilidade de Werther está em seu amigo, o suicida Penseroso. O gênio embotado de Macário dedica-se a três temas: morte, vinho e mulheres. – Bom dia, Macário. Onde vais? – Vou morrerNão há melhor túmulo para a dor que uma taça cheia de vinho ou uns olhos cheios de languidez. São passagens que caracterizam as sedes jamais satisfeitas do protagonista.

Quero dizer en passant que, se alguém me pedisse uma dica de boa leitura vampírica, não tenho mais dúvida de que Macário é a melhor opção. Não quero falar da diarréia de romances de vampiro que saiu nos último tempos. Mas a personalidade do personagem de Álvares de Azevedo, que mistura um profundo desgosto e falta de esperança a uma busca desalmada e sem freios pelo desvario, angústia a que a morte não é uma alternativa, faz dele, para mim, um vampiro genuíno.

Macário não é um hedonista. Não quer aproveitar a existência, não quer viver todas as experiências; sua vida não lhe tem valor algum. O fio de vida que o liga ao mundo é sustentado por seu ceticismo, em uma espécie de inércia oriunda de uma desilusão profunda com o mundo. Esse ceticismo, o gelo de seu sangue, é manifestado principalmente por seu ateísmo, o que atesta a óbvia influência do autor pelo romantismo francês, que jamais superou o catolicismo – esse, ao meu ver, é um ponto fraco da tradição romântica latina. Também a ideia que Macário faz da arte é cética: A arte degenerou em ofício e o gênio suicidou; (…) nos mangues e nas margens do Amazonas e do Orenoco há mais mosquitos e sezões do que inspiração; Amo as mulheres e odeio o romantismo. Na discussão com Penseroso, Segunda Parte, manifesta os arroubos de um espírito que não pode ser contido pelo romantismo convencional, e o toma como uma máscara à condição torturante do homem num mundo degenerado.

Eis que já vai ficando longa a notinha. Que se me perdoe a ligeireza das opiniões: certamente, é um ótimo livro.

John Contable, Seascape with rain cloud (1827).

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