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Archive for the ‘Pablo de Santis’ Category

Dalessius é calígrafo e possui uma relíquia. Pobre e obsessivo, conta sua misteriosa história, em que o rodeiam duas companheiras permanentes: a escrita e a morte.

A relíquia é o coração de Voltaire. Dalessius, após um difícil início de carreira, é enviado a Ferney para o cargo de calígrafo do filósofo. Porém, pouco tempo após sua chegada, é enviado a Toulouse para acompanhar em segredo o caso de Jean Calas, protestante condenado à morte, acusado de ter matado o filho que convertera-se ao catolicismo. Em Toulouse, conhece Kolm, ex-carrasco, maculado para sempre por seu antigo ofício e condenado a não tocar em nada nem ninguém senão por uma mão mecânica que carrega na ponta de um bastão.

Uma mulher misteriosa chama a atenção de Dalessius. Na viagem a Toulouse, feita no chamado Correio Noturno (transporte de mortos para suas cidades natais), cujo dono era seu tio, Dalessius se deparou com uma moça, um cadáver surpreendentemente vivo e belo. Apaixonado pela morta, assombrou-se quando, na cidade, a viu na janela de uma casa de prostitutas. No momento em que ia falar-lhe, invadem a casa monges dominicanos degolando todas as moças. Por um acontecimento extraordinário, descobrimos que a moça é um autômato que simula perfeitamente uma humana.

O livro é assim. Com recursos do imaginário fantástico do futurismo pré século XX, a história é tomada por dispositivos mecânicos que, junto de artes como escultura, caligrafia e pintura, dão um ar metafórico a tudo – coisa, aliás, bem voltairiana. O autômato que copia o homem com perfeição é tradicionalmente uma metáfora da falsidade da vida, assim como o ofício de calígrafo, que tem seu sentido na forma das letras e palavras, não em seu sentido ou verdade. A história é sobre a sedução do irreal.

Talvez seja por isso que a morte, critério último que acusa a vida, tenha um papel tão constante na novela. Ela nunca sai de cena. Vejam só: os pais de Dalessius morreram em um naufrágio; ele leva o coração do filósofo defunto; viaja na companhia de cadáveres; cuida da correspondência de Voltaire, a qual é repleta de ameaças de morte; vai a Toulouse em virtude do caso Calas (duas mortes); conhece um ex-carrasco (que agora tinha como emprego lavar corpos); a chacina na casa das prostitutas. Após isso tudo, parte da história se passa em um cemitério, há uma menção ao Apocalipse e são apresentadas, na Faculdade de Medicina,  máquinas de execução mais eficientes, entre elas a Halifax.

Além da morte, também a escrita é algo que sempre está ali. Pelo ofício do protagonista, certamente, mas também pelas descrições do mundo por olhos tão acostumados a pena e tinta. A caligrafia é uma arte de mistérios, delineada como uma alquimia. Uma variedade de tintas, penas, tinteiros, ingredientes, dão à escrita os mais variados e fabulosos efeitos. Desde cores que desaparecem até aquelas que matam. Os momentos em que escrita e morte se encontram são os grandes momentos da novela: o assassinado da jovem com o Novo Testamento transcrito em seu corpo, a degola de Silas Darel com a pena do protagonista, etc.

A morte pela pena e o traço definitivo; a paixão por uma moça que se confunde com as estátuas do porão da Academia de Artes; a decadência do calígrafo e do carrasco na aurora da imprensa e da guilhotina. A novela é rica em metáforas e muito bem escrita. Apesar de, a certa altura, a narrativa parecer um amontoado de fatos incompreensíveis entre si, após se perceber que o protagonista compartilha dessa impressão com o leitor, sabe-se que, na verdade, é apenas mistério.

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