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Archive for the ‘Crítica’ Category

Essa pequena obra, mais conhecida como O pintor da vida moderna, é um escrito de Baudelaire publicado no Figaro, em 1863, sobre o desenhista Constantin Guys. Além de inspirador e inteligente, o ensaio tem aquela carga de texto fundador da estética moderna, de que Baudelaire é autor essencial. Embora eu não conheça muito de modernismo, acredito ser este texto um dos primeiros a apresentar essa sensibilidade pelo artificial e urbano que, visto tratar-se de um ensaio sobre outro artista, já se vinha espalhando.

Certa vez, um professor meu comentou que há quatro autores fundamentais da cultura moderna: Baudelaire, Marx, Freud e Darwin. Acredito ser verdade. Como que quatro marcos do pensamento que esteve em pleno vigor até as últimas décadas do século passado, mas que inauguraram, entreviram, ou sintetizaram – na verdade, tanto faz – cada um, uma ideia genial, cuja longevidade é assegurada por serem não só substratos de um tempo, mas novas maneiras de ver. E Baudelaire, nesse ensaio, parece ter plena consciência disso. Achei curioso como ele mesmo parece incumbir-se de estar à frente da tradição, e feliz por encontrar em Constantin Guys um desenhista desse novo sentimento.

Edição: Paz e Terra, 1996. Sem indicação de tradutor. Organizador: Teixeira Coelho.

 

Constantin Guys, Carruagem e três cavalheiros em…, 185-.

 

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Li com atraso a Poética, era impossível adiar mais. É bem curtinha e simples, o que me fazia adiar é a mesma razão que me faz às vezes evitar Shakespeare: o medo de que aquela edição seja ruim, o que, no caso de grandes clássicos, é provável. Assim, li pouco Shakespeare, pouco Aristóteles, pouco Sófocles etc. Mas ler a Poética era uma necessidade, então peguei a edição que tenho mesma, que depois leio outra melhor.

De Aristóteles, li tempos atrás a Retórica. E, agora, a Poética. Na verdade, nem há o que dizer, tão básica é a leitura desse filósofo nas áreas humanas. A Retórica foi para mim quase que um tratado sobre a natureza humana; a Poética, um ótimo referencial para qualquer leitura de ficção. Claro que sei: Aristóteles escreveu para seu contexto etc, mas o fato de sua obra ter tido a importância que teve na história da cultura, sobretudo a Poética, garante a validade de seu uso como referencial. Até o século XIX, esse livro era onde a grande maioria dos poetas ia buscar instrução, e, se não o seguiam de maneira absoluta, permaneceram-lhe sempre grandes tributários. Vários outros tratados poéticos foram escritos, principalmente a partir do século XVI, a maioria com base em Aristóteles, mas nenhum foi tão lido. O filósofo estabelece preceitos um tanto difíceis de refutar acerca dos gêneros épico e dramático. Fundamental e muito bom de ler.

Edição: Abril, 1999. Tradução: Baby Siqueira Abrão.

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Esse pequeno livro contém alguns textos de Émile Verhaeren, literato e crítico belga falecido no início do século XX. O principal é uma defesa de Racine contra seu engessamento pela tradição escolar, que tende a circunscrever todos os clássicos franceses sob a poética de Boileau. Verhaeren demonstra como Racine viola os preceitos para obter os melhores efeitos e elevar-se além do classicismo. Viver espiritualmente ao futuro de sua época é a característica com que o crítico identifica o gênio, alma dos artistas imensos como Dante e Shakespeare. A segunda parte do livro é sobre a genialidade. Diferente de um artista talentoso, a qualidade do gênio não está na habilidade com que se destaca na arte de ser belo ou sagaz, mas em sua intuição, que o conduz por um caminho desconhecido, justamente por ser um caminho de outro tempo. Por isso diz serem os gênios revoluções, cataclismos.

Acho tudo isso muito bonito. Quanto mais se for para opor-se à ideia antiga de que o intelecto é produto puro de seu meio (o que daria razão a quem não levasse Racine a sério). Mas acho que a genialidade está muito mais dentro das obras dos autores que no efeito que elas causarão nas gerações posteriores. Seria muita pretensão eu chamar gênios somente aqueles que fizeram a arte atual ser o que é, que influenciaram decisivamente na história da cultura. Verhaeren tem o encanto de estar mergulhado em uma ideia filosófica da história, segundo a qual o gênio faz andar o tempo numa espécie de marcha para o universal. Seu fascínio pelo cânone, porém, faz com que ignore a possibilidade de haver gênios não-descobertos. Se revolucionar é preciso, o gênio desconhecido, de obras perdidas, não mereceria tal denominação. Penso em Vivaldi, por exemplo, que só foi verdadeiramente descoberto no início do século XX.

Creio que a obra diga mais sobre a genialidade do autor que a disposição das gerações posteriores a imitá-lo. O próprio texto de Verhaeren, apesar de tudo, me diz como posso identificar os melhores entre todos os muito bons: o gênio de verdade transforma a realidade em milagre.

 

 

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Não li muito de Victor Hugo ainda. Dois romances, uma novela e uma recolha de poemas. Mas ele tem sido o escritor de minha vida; jamais me envolvi tanto em uma leitura como quando li suas obras. Na verdade, sua escrita se presta bastante a isso, como a de todo bom romântico. Dias atrás, li um dos capítulos do livro de Robert Darnton, O grande massacre de gatos, sobre a mudança da relação entre autor e leitor operada em Rousseau. É muito interessante, uma daquelas coisas tão óbvias que nos escapam. Em Voltaire, por exemplo, os personagens são instrumentos do escritor para a transmissão de suas ideias, de sua mensagem, de sua tentativa de alcançar uma beleza elevada, etc, e o leitor o testemunha; em Rousseau, para Darnton, as coisas mudam porque a riqueza está na entrega do autor, de modo que sua obra transmita sua subjetividade e que o leitor, para aproveitá-la, tenha ele também de entregar-se às emoções que a obra suscite. É uma coisa que talvez, hoje, seja banal, mas ajuda a não esperarmos de classicistas o que eles não queriam dar e a explicar um pouquinho por que é tão fácil ter afetos pela literatura romântica.

Hugo é um gigante em sua grandiloquência. As visões do infinito encontram em sua obra caracterizações fantásticas. Certamente, nem tudo é liberação de gênio, podia escrever tão impecavelmente quanto um clássico, seguia um metro, tinha um estilo, era um esteta meticuloso. Mas acho que seu tesouro está em seu idealismo. Em relação aos homens, à literatura, a tudo. Esse idealismo, ele o apresenta bem neste texto, prefácio à peça Cromwell, Do grotesco e do sublime, tido como o marco inicial do romantismo francês, de 1826.

Evidentemente, não vou resumir a mirabolante história da cultura que Hugo cria, dividindo a produção humana nos tempos entre lírica, épica e dramática, sendo a última a modernidade literária, época do gênio romântico e da mistura dos gêneros. É um texto pequenino, embora esteja além das dimensões de um prefácio normal. Sua proposta e sua beleza é que são enormes. Chamou especialmente a minha atenção de estudante de História o fato de Hugo situar a História na segunda fase dessa evolução dos gêneros. Para ele, a História, como gênero literário e ramo do conhecimento, é uma das formas da epopeia. Permite-se tal associação sob a alegação de que a cronologia não expulsa a poesia, e Heródoto é também poeta épico. A diferença, para mim, é que, enquanto para Victor Hugo a Poesia é uma criação revestida de vida natural, uma ilusão com prestígio de verdade, a História, talvez seja possível dizer, é uma vida revestida de criação, uma verdade com em forma de ilusão. Daí a afirmação do autor de que a finalidade da Poesia seja a criação, e a da História, a ressurreição. Certamente, há nisso toda a riquíssima filosofia da história que desponta no romantismo e que é, com efeito, o épico disso tudo.

O prefácio está publicado em um livrinho separado, de tradução de Célia Berrettini, pela Perspectiva. Achei excessiva a preocupação didática das numerosas notas de rodapé.

The Grove or Admiral's House, John Constable, 1822.

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Porque é bom pra caramba. Aqui, um texto de Antônio Xerxenesky em que diz aquele que acredito ser o único motivo razoável para se preferir um livro contemporâneo a um clássico.

Porque dizer que uma obra escrita hoje, e, portanto, intimamente relacionada às questões atuais, participa mais do espírito do nosso tempo é algo tão enganoso quanto pensar que, lendo Eurípides, você aprenderá somente sobre a sensibilidade grega. Preferir o livro contemporâneo porque ele é mais contemporâneo é como preferir o grego porque ele é mais grego. Grande engano; o mesmo equívoco do classicista tradicional, mas com outro referencial.

Acontece que, creio, não há como não ser contemporâneo, ou ser menos contemporâneo. As leituras que eu fizer, as opiniões que eu sustentar sobre literatura ou qualquer arte, desde que sejam sinceras, serão inevitavelmente contemporâneas. Ainda que eu varra (ou pense varrer, não importa) o século XX dos meus horizontes artísticos. Dizer o contrário seria ignorar uma espécie de imperativo de ruptura que todos têm em sua formação. Pode-se romper com qualquer coisa, e, necessariamente, tem de se romper com alguma coisa.  Acho, na verdade, que essa independência é que define ser contemporâneo (em qualquer época), e, por isso, ler clássicos em vez de obras de hoje pode ser um gesto indubitavelmente contemporâneo. Certamente, não quero dizer que seja ruim ler os livros escritos aqui e hoje. Evidentemente, além de bom, isso é importante para se manter em contato com o que acontece lá fora. O que digo é que, ao cabo, todos partem do zero, e são contemporâneos. Descobrir o que têm em comum um classicista de hoje e um amante da literatura atual é descobrir o verdadeiro caráter de nossa contemporaneidade.

E, se é uma independência em relação ao passado que caracteriza o contemporâneo, o único jeito de não ser contemporâneo é ser dependente de uma forma. No caso, um classicista que ama o clássico por ser clássico – mas, também, um modernista que ama o moderno porque é moderno. O fetichismo classicista é equivalente ao fetichismo contemporâneo.

Infelizmente, não li ainda o livro obrigatório de I. Calvino sobre os clássicos. Mas queria deixar aqui algumas razões que me fariam tomar o partido restaurador nessa guerra eterna entre presente e passado. Na verdade, sou um semianalfabeto em termos de literatura do século XX – e me penitencio por isso -, portanto, aqui estão somente motivos que admiro nos clássicos – e não predicados pelos quais acredito serem eles melhores que os modernos:

– Sabedoria. Ridículo, tanto mais quando se fala de arte. Mas há sabedoria, assim como há beleza. Diferentemente sábio, cada clássico brinda o leitor com uma visão de mundo que certamente o influenciará. Não sei, simplesmente acho o dia mais bonito quando leio Walter Scott. Alguns são mais extremos, mesmo perversos, outros mais moralistas. Não importa. Sabedoria é uma espécie de felicidade intelectual. Mas talvez seja só hipocrisia.

– Inteligência. Dificilmente, você encontrará um erro lógico e grave em um grande clássico. E, se você encontra, é muito provável que seja você quem não tenha entendido direito. Ademais, em clássicos, tenho quase sempre o prazer descontente de ver uma força intelectual que certa nostalgia inerente me faz achar inigualável.

– Beleza. E criatividade. Ler Racine, na fronteira do fetichismo… Ah, melhor não dizer nada sobre o que, se dissesse pouco, seria pior.

– E, sobretudo – na verdade, esse é o único motivo de que nunca duvidei -, a maioria dos clássicos é boa pra caramba.

Turner, Arundel Castle, with Rainbow, c. 1824.

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Aqui um pequeno texto de Paul Hazard sobre a revolta de Lessing contra o classicismo francês, durante a curta existência de seu periódico Dramaturgia (1767 – 1769). O autor de Laocoonte considerava o teatro francês uma subversão das regras aristotélicas, o que fazia dele uma mentira, um disparate – ele não existia. Fria, artificial, convencional, a tragédia clássica, no entanto, nunca morria. Quando o Teatro de Hamburgo teve, por falta de repertório alemão e, quem sabe, por necessidade de dinheiro, de recorrer aos clássicos franceses, Lessing, guia e crítico literário do teatro, procurou expor todas as razões pelas quais o equívoco chamado teatro francês não deveria ser aplaudido. Não satisfeito em combater Voltaire, que era quem mais fazia sucesso então, ergueu-se contra um dos mais importantes pilares da cultura francesa – Corneille. Ao inventor da tragédia francesa, o crítico opunha Shakespeare. A guerra contra o gênio francês era como que a de um jardim selvagem contra um knot garden.

Jean-Antoine Watteau, L'amour au théâtre français.

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Voltaire Literário é parte da sequência completada por Voltaire Político e Voltaire Historiador, lançada pelo professor Marcos Antônio Lopes. Também tenho os outros dois, pretendo ler em seguida. São todos pequenos, de menos de 150 páginas, e poderiam mesmo fazer um só volume. Aliás, li em algum lugar que esse três livros são, originalmente, a tese de doutorado do autor, chamada Voltaire: a História, o Príncipe e a Virtude.

Basicamente, Voltaire Literário trata dos aspectos historiográficos presentes nos contos do filósofo. São cinco capítulos, organizados tematicamente, que buscam demonstrar que, nesses contos, há mais do que divertimento, ridicularização e ataques à Igreja. Com certeza, como em toda sua obra, a ficção de Voltaire é repleta de características circunstanciais, que estavam, perfeitamente, nos propósitos do autor. O que o professor Marcos Antônio parece fazer é evidenciar, por trás desses aspectos rasos do texto, relacionados, por exemplo, à bajulação da duquesa de Maine ou ao escárnio de jesuítas, o debate teórico que se desenrolava sobre como se deve escrever a história.

Voltaire participa da transformação que, no século XVIII, se definiria como uma espécie de secularização do pensamento histórico, no sentido de que a história providencialista, representada, entre outros, por Bossuet, sofria, nas palavras do professor, a pressão de impactos particularmente mortais. Nosso filósofo leva ao ridículo a tradição mostrando suas incoerências da maneira, digamos, menos delicada, como em Os Ouvidos do Conde de Chesterfield e o Capelão Goudman, Memnon e Zadig.

As formas que Voltaire dá a seu pensamento sobre história, nos contos, estão contidas no carrossel de desventuras por que passam seus protagonistas. Apresentar a evolução humana como um acúmulo de erros levados a cabo pela ambição desenfreada e o fanatismo dos homens é o modo como o filósofo faz, em Cândido e Zadig, por exemplo, passar diante dos olhos das personagens o mundo como ele é. A exagerada pretensão realista de Voltaire, que, para mostrar que este não é o melhor dos mundos, mostra que é o pior, parece ser uma resposta à visão idealista da história sagrada, e, na verdade, a qualquer visão que esconda do homem seu destino funesto nesse vale de lágrimas.

Para o Príncipe das Luzes, a história carece de sentido, pouco mais é que séculos e séculos de corrupção, vício e pretensão, entrecortados por pequenos períodos de grandeza encabeçados por homens como Júlio Cesar e Luís XIV. O único progresso que há, e isso torna desesperadoramente lenta a evolução humana, é levado a cabo por espíritos esclarecidos, que possuem uma visão acima da comum dos homens. Tal interpretação da história insere Voltaire, segundo a tese do professor Marcos Antônio, na tradição historiográfica clássica, pois se por um lado a presença de Deus na história do homem é combatida, por outro o providencialismo é posto nas mãos de monarcas ilustrados. Assim é que o personagem do príncipe figura na maior parte de seus contos, de modo que tais estórias possam ser colocadas na memória dos espelhos de príncipes, mas em formato iluminista. Isso faz com que a ruptura proposta por Voltaire em relação ao pensamento tradicional, embora tenha tido um valor imenso, não tenha sido total.

Humanizando os monarcas consagrados, destruindo mitos religiosos e nacionais, expondo as mazelas dos homens nesse mundo deveras prosaico, os contos de Voltaire são a imagem da ficção iluminista que constitui, em sua guerra à tradição, como diz Paul Hazard, citado por Marcos Antônio Lopes, a maior modificação que a literatura alguma vez terá sofrido. Talvez isso explique por que o autor tenha preferido os contos, uma vez que a obra ficcional de Voltaire seja muito maior que o número de contos que escreveu, compreendendo muito de poesia, epopeia e teatro. Talvez os contos filosóficos, sendo um gênero praticamente inventado pelo filósofo no calor do combate, correspondam mais facilmente às expectativas do autor acerca da relação entre filosofia e literatura. O conto voltairiano, de fato, se presta melhor a ilustrar o deslocamento operado na literatura iluminista, quando a estética dá lugar à crítica, ao chicote banhado em sal e vinagre (adorei essa expressão). Apesar de tudo o que os contos oferecem, eles não são, no entanto, mais que uma parte do Voltaire literário.

Ilustração para Zadig, ou O Destino. s/d

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