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Archive for the ‘Grécia’ Category

Li com atraso a Poética, era impossível adiar mais. É bem curtinha e simples, o que me fazia adiar é a mesma razão que me faz às vezes evitar Shakespeare: o medo de que aquela edição seja ruim, o que, no caso de grandes clássicos, é provável. Assim, li pouco Shakespeare, pouco Aristóteles, pouco Sófocles etc. Mas ler a Poética era uma necessidade, então peguei a edição que tenho mesma, que depois leio outra melhor.

De Aristóteles, li tempos atrás a Retórica. E, agora, a Poética. Na verdade, nem há o que dizer, tão básica é a leitura desse filósofo nas áreas humanas. A Retórica foi para mim quase que um tratado sobre a natureza humana; a Poética, um ótimo referencial para qualquer leitura de ficção. Claro que sei: Aristóteles escreveu para seu contexto etc, mas o fato de sua obra ter tido a importância que teve na história da cultura, sobretudo a Poética, garante a validade de seu uso como referencial. Até o século XIX, esse livro era onde a grande maioria dos poetas ia buscar instrução, e, se não o seguiam de maneira absoluta, permaneceram-lhe sempre grandes tributários. Vários outros tratados poéticos foram escritos, principalmente a partir do século XVI, a maioria com base em Aristóteles, mas nenhum foi tão lido. O filósofo estabelece preceitos um tanto difíceis de refutar acerca dos gêneros épico e dramático. Fundamental e muito bom de ler.

Edição: Abril, 1999. Tradução: Baby Siqueira Abrão.

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Pequenino livro com algumas crônicas do escritor gaúcho Sérgio Faraco, com temas da antiguidade grega e qualquer coisa autobiográfica. O contraste entre a temática erudita e a forma jornalística do gênero faz da maioria dos textos algo interessante de se ler, sobretudo por causa das referências a autores clássicos. Mas os dois que destaco não são de ambiente grego: Cantata para uma escrava triste, uma memória de Alegrete nos anos 50, e Livros perdidos, uma pequena reflexão sobre os livros que, por causas diversas, não chegaram a nós. São duas crônicas legais de um livrinho que achei bem médio.

Edição: Porto Alegre: Mercado Aberto, 1998.

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Prometeu Acorrentado é a segunda das peças que formam a trilogia da história do titã responsável por dar à humanidade o fogo e ensinar-lhe todas as artes. As outras duas, Prometeu Portador do Fogo e Prometeu Libertado, não chegaram senão em fragmentos aos dias de hoje.

Ésquilo é o mais antigo dos três grandes trágicos gregos. Confesso que é a primeira vez que o leio. Minhas experiências com esse teatro se resumem a quatro ou cinco peças de Eurípides e uma de Sófocles.

A peça começa com Prometeu sendo agrilhoado ao rochedo por Hefesto. Cumprindo sob protesto a incumbência, o deus do fogo e da forja é auxiliado pelas divindades menores Poder e Força, que o exortam a deixar de queixar-se. Prometeu lamenta sua desventura mas não se arrepende, e, em momento algum da obra, mesmo sob as admoestações das oceanides, do Oceano, de Io e de Hefesto, hesita em sua posição solidária aos humanos. Tendo lhes dado o fogo sagrado e sendo, por isso, condenado à prisão eterna nas rochas, Prometeu, um titã, sacrificou-se pelos mortais. Aos demais personagens da peça, parece faltar o senso de justiça do herói. O coro das oceanides o acompanha até o fim, mas não por partilhar da convicção de Prometeu (também acham que ele errou), mas por compaixão a sua pena.

Prometeu tem o dom de prever o futuro. Portanto, já sabia de sua penitência ao ajudar os homens. Mas sabia também que sua punição não seria a morte, uma vez que guardava o segredo da queda de Zeus do trono do Olimpo. O segredo era que Tétis, bela nereida, estaria destinada a dar à luz um filho de Zeus que o sobrepujaria em poder e o destronaria. Ao coro e aos outros personagens, Prometeu diz somente que Zeus cairá, o que é suficiente para que o deus dos deuses envie seu mensageiro, Hermes, à rocha onde está o titã para lhe arrancar a informação. Ao preço de ter devorado constantemente seu fígado pela águia fulva, Prometeu nada diz ao mensageiro e o trata com desprezo. Mesmo ameaçado de ser enviado ao Hades, é inamovível em sua decisão. Ao fim da obra, Prometeu é fulminado pelo raio divino e cai no Hades, junto das oceanides. Só será libertado por Héracles, gerações mais tarde. Mas dessa aventura, não dispomos.

É a própria Tétis quem revela a Zeus o segredo de sua queda, e o deus a dá em casamento a Peleu. Dessa união, nasce Aquiles, o mais poderoso dos mortais.

Edição: Jorge Zahar Editor, 1993. Tradução de Mário da Gama Kury.

 

Prometeu sendo acorrentado por Vulcano, Dirck van Baburen, 1623.

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