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Archive for the ‘Poesia’ Category

Li com atraso a Poética, era impossível adiar mais. É bem curtinha e simples, o que me fazia adiar é a mesma razão que me faz às vezes evitar Shakespeare: o medo de que aquela edição seja ruim, o que, no caso de grandes clássicos, é provável. Assim, li pouco Shakespeare, pouco Aristóteles, pouco Sófocles etc. Mas ler a Poética era uma necessidade, então peguei a edição que tenho mesma, que depois leio outra melhor.

De Aristóteles, li tempos atrás a Retórica. E, agora, a Poética. Na verdade, nem há o que dizer, tão básica é a leitura desse filósofo nas áreas humanas. A Retórica foi para mim quase que um tratado sobre a natureza humana; a Poética, um ótimo referencial para qualquer leitura de ficção. Claro que sei: Aristóteles escreveu para seu contexto etc, mas o fato de sua obra ter tido a importância que teve na história da cultura, sobretudo a Poética, garante a validade de seu uso como referencial. Até o século XIX, esse livro era onde a grande maioria dos poetas ia buscar instrução, e, se não o seguiam de maneira absoluta, permaneceram-lhe sempre grandes tributários. Vários outros tratados poéticos foram escritos, principalmente a partir do século XVI, a maioria com base em Aristóteles, mas nenhum foi tão lido. O filósofo estabelece preceitos um tanto difíceis de refutar acerca dos gêneros épico e dramático. Fundamental e muito bom de ler.

Edição: Abril, 1999. Tradução: Baby Siqueira Abrão.

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Cinco obras que li no fim do ano passado, que deixo aqui para não esquecer de sua existência caso um dia me interesse mais seriamente por esse assunto fascinante.

Romantismo e revolta, Jacob Leib Talmon: Erudita explanação que contextualiza a postura romântica na corrente das revoluções na Europa entre o fim do XVIII e início do XIX. Trata o romantismo pelo aspecto revolucionário e localiza na França de 1848 a breve concretização da utopia romântica. Apesar das notas de rodapé intrometidas do tradutor, a edição é muito boa pelas imagens. Focos histórico e francês. Verbo, 1967.

Conservadorismo romântico: origem do totalitarismo, Roberto Romano: Muito bom livro que analisa obras filosóficas do romantismo e do pré-romantismo alemães de um ponto de vista que relacione sua nostalgia pela unidade a um pensamento político antidemocrático. Tem aproximações interessantes entre filosofia e história, e uma abordagem criativa da teoria das cores de Goethe. A primeira parte, sobre Hegel e a história solar, também é ótima. Focos filosófico e alemão. Brasiliense, 1981.

Aspectos filosóficos do romantismo, Gerd Bornheim: Livro pequenino mas muito instrutivo sobre a filosofia dos românticos alemães. Aborda de maneira breve uma grande quantidade de assuntos acerca dos quais debruçou-se o pensamento da época. Focos filosófico e alemão. Iel, 1959.

Introdução ao romantismo, Henri Peyre: Obra erudita e de leitura fácil e rica, é uma das melhores dessa listinha. Henri Peyre fala sobre as raízes da literatura romântica no XVIII, seu desenvolvimento na primeira metade do XIX e da sobrevivência de seu gesto na segunda metade do século e mesmo no XX. É um ótimo livro para se tomar conhecimento de escritores menos célebres. Focos literário e francês. Europa-América, 1975.

O romantismo, J. Guinsburg (org.): A obra mais importante da lista em termos de introdução geral ao assunto. Trata-se de uma coletânea de ensaios de nomes como Otto Maria Carpeaux, Anatol Rosenfeld, Bruno Kiefer e Alfredo Bosi sobre diferentes aspectos do movimento, das artes plásticas à música, com o mérito de abordar também a diversidade nacional dos romantismos. Perspectiva, 1999.

 

Nils Blommér, Fadas no prado, 1850.

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La Araucana é um poema épico escrito na segunda metade do século XVI por Dom Alonso de Ercilla y Zuñiga, nobre que participou pessoalmente das campanhas de conquista das terras americanas onde hoje é o Chile. Dividido em três partes que totalizam mais de oitocentas páginas em versos decassílabos, o poema narra a guerra entre espanhóis e araucanos, povo guerreiro cuja resistência equivale em heroísmo à intrepidez dos conquistadores.

Pois, o que eu esperava era não mais que um elogio à bravura dos heróis de guerra da Espanha. É claro que o poeta não negligencia esse louvor, mas o que surpreende é que a maior parte do poema seja dedicada a eternizar a glória dos autóctones e seus próprios heróis. La Araucana é dedicada à memória do povo inimigo dos conquistadores, embora estes, obviamente, também sejam retratados com todas as qualidades e ações de um Aquiles ou de um Odisseu. Outra coisa que impressiona é o fato de o próprio poeta ser um dos personagens, coisa, até onde sei, incomum no gênero épico. Ele mesmo luta, descansa e discursa – inclusive, há parte em que o poeta narra a si mesmo escrevendo o próprio poema.

Gostei bastante. Apesar da fama de o épico ser maçante, achei um prazer ler Ercilla. É uma leitura rápida, a despeito do tamanho característico do gênero, e fácil – o espanhol do autor é bastante acessível mesmo para leitores não iniciados na língua como eu. De resto, procede a crítica que Voltaire faz, em seu Ensaio sobre a poesia épica, de que o maior problema do poema de Ercilla seja fazer falar em decassílabos tão bonitos e esmerados indígenas incultos.

Edição lida: Buenos Aires: EMECÉ, 1945.

 

Bartolomé Esteban Murillo, Retrato de cavalheiro em gola fechada, c. 1670.

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Sonetos, Camões

Fim-de-semana passado, li os sonetos de Camões. Tenho uma queda por poesia portuguesa, e isso, junto da minha queda maior ainda pelo que se escreveu no XVI, fez com que eu aproveitasse muito bem.

O que me surpreendeu foi aquela espécie de simplicidade em seus versos, sem muitas inversões e tudo o que mais se costuma esperar de uma obra de quase 500 anos. Tende-se, na verdade, a pensar que, quanto mais antigo o livro, mais difícil a leitura. É um engano, pois isso depende mais do estilo do autor. Quando se lê obras estrangeiras no idioma original é fácil perceber que a distância de nossa época importa muito menos que o estilo. Por exemplo, é muito mais fácil, a meu ver, ler o francês de Voltaire e mesmo de Racine que o de Victor Hugo e Rimbaud.

Os versos de Camões são diretos, mas não é difícil ver o que há de trabalhoso por trás de toda sua beleza.  E esse trabalho desafia constantemente o leitor, embora, estranhamente, não ponha jamais em questão a compreensão do poema. A uma vez, é simples e complexo. Acredito que esse seja um dos segredos da elegância.

Edição: Klick editora, 1998.

 

Erros meus, má fortuna, amor ardente,
Em minha perdição se conjuraram;
Os erros e a fortuna sobejaram,
Que para mim bastava o amor somente.
 
Tudo passei, mas tenho tão presente
A grande dor das cousas que passaram,
Que magoadas iras me ensinaram
A não querer já nunca ser contente.
 
Errei todo o discurso de meus anos,
Dei causa que a Fortuna castigasse
As minhas mal fundadas esperanças.
 
De amor não vi senão breves enganos.
Oh, quem tanto pudesse, que fartasse
Este meu duro Gênio de vinganças!
 

 

 

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Esse pequeno livro contém alguns textos de Émile Verhaeren, literato e crítico belga falecido no início do século XX. O principal é uma defesa de Racine contra seu engessamento pela tradição escolar, que tende a circunscrever todos os clássicos franceses sob a poética de Boileau. Verhaeren demonstra como Racine viola os preceitos para obter os melhores efeitos e elevar-se além do classicismo. Viver espiritualmente ao futuro de sua época é a característica com que o crítico identifica o gênio, alma dos artistas imensos como Dante e Shakespeare. A segunda parte do livro é sobre a genialidade. Diferente de um artista talentoso, a qualidade do gênio não está na habilidade com que se destaca na arte de ser belo ou sagaz, mas em sua intuição, que o conduz por um caminho desconhecido, justamente por ser um caminho de outro tempo. Por isso diz serem os gênios revoluções, cataclismos.

Acho tudo isso muito bonito. Quanto mais se for para opor-se à ideia antiga de que o intelecto é produto puro de seu meio (o que daria razão a quem não levasse Racine a sério). Mas acho que a genialidade está muito mais dentro das obras dos autores que no efeito que elas causarão nas gerações posteriores. Seria muita pretensão eu chamar gênios somente aqueles que fizeram a arte atual ser o que é, que influenciaram decisivamente na história da cultura. Verhaeren tem o encanto de estar mergulhado em uma ideia filosófica da história, segundo a qual o gênio faz andar o tempo numa espécie de marcha para o universal. Seu fascínio pelo cânone, porém, faz com que ignore a possibilidade de haver gênios não-descobertos. Se revolucionar é preciso, o gênio desconhecido, de obras perdidas, não mereceria tal denominação. Penso em Vivaldi, por exemplo, que só foi verdadeiramente descoberto no início do século XX.

Creio que a obra diga mais sobre a genialidade do autor que a disposição das gerações posteriores a imitá-lo. O próprio texto de Verhaeren, apesar de tudo, me diz como posso identificar os melhores entre todos os muito bons: o gênio de verdade transforma a realidade em milagre.

 

 

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Um poema de Victor Hugo

Tradução minha de um poeminha de Hugo. Ainda ele. Na verdade, sei que a tradução não é boa, mas é praticando que se melhora.

 

Printemps

Voici donc les longs jours, lumière, amour, délire ! 
Voici le printemps ! mars, avril au doux sourire,
Mai fleuri, juin brûlant, tous les beaux mois amis ! 
Les peupliers, au bord des fleuves endormis,
Se courbent mollement comme de grandes palmes ; 
L’oiseau palpite au fond des bois tièdes et calmes ; 
Il semble que tout rit, et que les arbres verts
Sont joyeux d’être ensemble et se disent des vers. 
Le jour naît couronné d’une aube fraîche et tendre ;
Le soir est plein d’amour ; la nuit, on croit entendre, 
A travers l’ombre immense et sous le ciel béni, 
Quelque chose d’heureux chanter dans l’infini.

 

Primavera

Eis então os dias longos, luz, amor, delírio!
A primavera! Março, abril de doce sorriso,
Maio de flores, junho fogoso, belos amigos!
Choupos na margem dos rios adormecidos,
Curvam-se moles como palmeiras enormes;
Pássaros se agitam no fundo dos bosques;
Parece que tudo sorri, e que se divertem,
As árvores juntas se dizendo poesia.
Coroado duma branda aurora, nasce o dia;
A tarde é cheia de amor; à noite, todos sentem
Pela sombra imensa, sob o céu bendito,
Alguma coisa feliz cantar no infinito.

 

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Ontem acabou a edição do seminário semestral de História da Arte do MARGS. Vimos a passagem do século XIX para o século XX, as diversas manifestações de algo como um espírito de época que compreendeu parte da pintura, da literatura, da arquitetura e das demais artes desde, meados do XIX até 1914. Especificamente, foi algo que aconteceu entre o impressionismo e o modernismo, que floresceu como a face estética das utopias do tempo, partindo dos pré-rafaelitas e alcançando o ápice no art nouveau. O que posso dizer é que dificilmente verei reunião de belezas tão perfeita como a que vi nesse estudo desprendido e confortável. O próximo será sobre o vanguardismo do século XX – terei de engolir a seco meus preconceitos e aprender a gostar de arte moderna.

Da poesia, vimos Rimbaud, Mallarmé, Verlaine, Kaváfis, entre alguns outros. Terminamos o semestre com uma sequência estonteante de Emily Dickinson. Da arquitetura, vimos Le Duc, Gaudí, Van der Welde e outros de que agora não me recordo. Da pintura, vimos tantos que seria impraticável listar. Escondido entre dois movimentos de muito maior projeção posterior, esse momento simbolista parece um vale de flores.

Aqui em baixo, as sete obras analisadas na última aula, que precederam encantos de Dickinson:

Klimt, A Esperança. 1903.

Klimt, Dánae. 1908.

Van der Velde, Casa Otlet. 1900.

Gaudí, Casa Milá. 1907.

Moreau, Édipo e a Esfinge. 1864.

Moreau, Salomé. 1876.

Munch, Meninas no Jetty. 1903.

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