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Archive for Março, 2012

É o primeiro livro que leio de Camus. Achei que não fosse gostar, mas até que gostei. É uma obra cheia de metáforas e bastante circunstancial, fortemente relacionada com o contexto da ocupação nazista da França.

A peça passa-se na Espanha e apresenta Cádiz governada pela Peste, que, usurpando o poder de um líder inerte, instaura um regime burocrático esvaziado de sentido. A vida dos cidadãos é submetida pelo império da Peste e sua secretária, de modo que o sofrimento e o desespero tornem-se banais. Na peça, toda dor vem da imposição, pelo terror, de uma ordem administrativa à vida pura (tanto no caráter das reformas do governo da Peste quanto no fato de a Peste ter tido necessidade de tomar o poder para flagelar a cidade). No fim, a chave para derrotar o mal está em vencer o medo que se tem dele, e Camus conclui a obra com a afirmação do homem sobre a ordem que lhe é imposta, como se o regime impusesse uma força histórica e o homem respondesse com uma força eterna.

Camus tem belas palavras, há momentos muito bonitos na obra, mas, no geral, achei tudo muito caricato e muito óbvio. A peça não é comparável às grandes obras dos séculos anteriores, a Peste não se compara às personagens vilãs do classicismo e a angústia dos cidadãos com a conseguinte explosão de ímpeto do fim da peça não se compara a seus equivalentes do romantismo. Mas, se tem algo em que percebo o valor dessa obra, é no vazio que há por trás de tudo: nem o cenário colorido da Espanha, nem a maldade da Peste e a lógica da secretária, nem a resposta dos homens, nem o amor dos protagonistas, nada disso parece muito verdadeiro: o único personagem que parece resumir tudo e carregar o real valor da obra é um, curioso, chamado Nada. É nele, em suas falas e ações, que vejo tudo o que até agora penso de Camus.

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em desenho sobre papel.

 

Maria lendo, Albrecht Dürer, s/d.

 

Menina lendo, Lucas van Leyden, 1521.

 

Uma jovem lendo, Rembrandt, 1634.

 

Retrato de Pauline Rivaz, John Brett, 1858.

 

Lady Jane Grey, Francis John Wyburd, 1866.

 

Elizabeth Siddall em uma cadeira, Dante Gabriel Rossetti, s/d.

 

Leitura, anônimo, 1877.

 

Retrato de E. G. Mamontova, Ilya Repin, 1879.

 

Lady Jane Grey, Madame Marie Schild, 1883 ou 1898.

 

Retrato de Natália B. Nordman lendo, Ilya Repin, 1901.

 

 

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e sua elegância diferente.

 

Wybrand Hendriks William Oliver, Garota lendo, s/d.

 

Victor Joseph Chavet, Mulher lendo, 1848.

 

Charles Perugini, Retrato de Miss Helen Lindsay, c. 1870.

 

Francis John Wyburd, Leitura, s/d.

 

James Sant, Ida e Ethel, 1884.

 

Theodor Fischer Pio Ricci, Na livraria, s/d.

 

Guglielmo Zocchi, Uma boa leitura, s/d.

 

Eduardo Leon Garrido, O livro de rascunhos, s/d.

 

Edmund Tarbell, Garota lendo, 1909.

 

Robert James Gordon, Mulher lendo, c. 1910.

 

 

 

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Li com atraso a Poética, era impossível adiar mais. É bem curtinha e simples, o que me fazia adiar é a mesma razão que me faz às vezes evitar Shakespeare: o medo de que aquela edição seja ruim, o que, no caso de grandes clássicos, é provável. Assim, li pouco Shakespeare, pouco Aristóteles, pouco Sófocles etc. Mas ler a Poética era uma necessidade, então peguei a edição que tenho mesma, que depois leio outra melhor.

De Aristóteles, li tempos atrás a Retórica. E, agora, a Poética. Na verdade, nem há o que dizer, tão básica é a leitura desse filósofo nas áreas humanas. A Retórica foi para mim quase que um tratado sobre a natureza humana; a Poética, um ótimo referencial para qualquer leitura de ficção. Claro que sei: Aristóteles escreveu para seu contexto etc, mas o fato de sua obra ter tido a importância que teve na história da cultura, sobretudo a Poética, garante a validade de seu uso como referencial. Até o século XIX, esse livro era onde a grande maioria dos poetas ia buscar instrução, e, se não o seguiam de maneira absoluta, permaneceram-lhe sempre grandes tributários. Vários outros tratados poéticos foram escritos, principalmente a partir do século XVI, a maioria com base em Aristóteles, mas nenhum foi tão lido. O filósofo estabelece preceitos um tanto difíceis de refutar acerca dos gêneros épico e dramático. Fundamental e muito bom de ler.

Edição: Abril, 1999. Tradução: Baby Siqueira Abrão.

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Esse é um dos melhores livros de história que já li até agora, se não o melhor. Embora seja bem pequeno, consegue o que poucos livros de história conseguem: fornecer, ao mesmo tempo, uma instrução básica sobre um contexto e uma análise profunda de determinados aspectos. E mais: esse aprofundamento é de uma criatividade genial.

Apostolidès propõe uma análise do funcionamento do Estado sob Luís XIV, levando em consideração, sobretudo, duas dimensões: as bases imaginárias sobre as quais repousa a ideia de monarca absoluto, desenvolvidas magistralmente no capítulo sobre a mitistória, e a difusão da luz real pela subcultura cortesã e pelas artes do período. Na segunda parte do livro, o reino de imaginação e simbolismo de Luís XIV assume certa autonomia, um aspecto de máquina, momento que, segundo o autor, o corpo simbólico do rei ultrapassa seu corpo real. No desenrolar desse enredo em que o rei, de maquinista, torna-se ele mesmo máquina, o leitor também presencia a transformação do saber que caracteriza a época clássica, e que culmina, após a querela dos antigos e modernos, na criação paulatina de campos autônomos como a história e a arte, liberados da carga mitológica do início do século embora ainda tributários do financiamento real.

Edição: José Olympio, 1993. Tradução: Cláudio Cesar Sanloro.

 

Charles le Brun, A queda dos anjos rebeldes, 1680.

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Mais um livrinho de Marcos Antônio Lopes, autor de Voltaire Literário, Voltaire Político e Voltaire Historiador. Anterior a estes de uns dez anos e sobre um tema mais recuado no tempo, A imagem da realeza é uma introdução acerca da monarquia francesa do século XVII. Sem grandes pretensões, serve bem a mostrar com brevidade os princípios que fundamentam o poder absoluto, mas passa praticamente em branco pela literatura e pela arte, carne do simbolismo monárquico.

Edição: Ática, 1994.

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Esse livro traz anotações de Lucien Febvre relativas aos cursos por ele ministrado entre 1945 e 47 acerca do tema que o título refere. Cada capítulo diz respeito a uma aula, e o livro percorre um trajeto que vai das considerações gerais sobre o sentimento da honra e o conceito de pátria a seu estado nos ano 40, os turbulentos tempos que inspiraram a meditação de Febvre.

Escreve divinamente. Se mesmo nessas anotações que talvez nem fossem para ser publicadas, se mesmo pelo filtro da tradução, resiste uma qualidade que salta, uma beleza de ímpeto, quem dirá em alguma obra grande como Combats pour l’Histoire, que ainda não tive a chance de ler? Só li algumas outras coisas soltas de Febvre, que mal lembro de onde eram, mas digo que é um de meus historiadores prediletos.

Os capítulos que tratam do nascimento medieval da honra e de sua transformação na aurora da modernidade são os melhores. Há momentos geniais, como a relação que o autor faz entre o sentimento de fidelidade oriundo do laço de vassalagem e a moral cristã no nascimento do juramento por honra. Outra parte que me impressionou foram as considerações sobre a tradição espanhola no capítulo sobre o Cid, de Corneille.

Mas Honra e pátria tem muitos defeitos. Sobretudo, parece, ao fim, um livro fraco, sem muito a acrescentar. E há perigo de o leitor fazer um mau julgamento do autor se não tiver consciência de que a obra foi montada com anotações esparsas encontradas postumamente.

Edição: Civilização Brasileira, 1998. Tradução: Eliana Aguiar.

 

Viktor Vasnetsov, Um cavaleiro na encruzilhada, 1878.

 

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