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Archive for the ‘Camões’ Category

Sonetos, Camões

Fim-de-semana passado, li os sonetos de Camões. Tenho uma queda por poesia portuguesa, e isso, junto da minha queda maior ainda pelo que se escreveu no XVI, fez com que eu aproveitasse muito bem.

O que me surpreendeu foi aquela espécie de simplicidade em seus versos, sem muitas inversões e tudo o que mais se costuma esperar de uma obra de quase 500 anos. Tende-se, na verdade, a pensar que, quanto mais antigo o livro, mais difícil a leitura. É um engano, pois isso depende mais do estilo do autor. Quando se lê obras estrangeiras no idioma original é fácil perceber que a distância de nossa época importa muito menos que o estilo. Por exemplo, é muito mais fácil, a meu ver, ler o francês de Voltaire e mesmo de Racine que o de Victor Hugo e Rimbaud.

Os versos de Camões são diretos, mas não é difícil ver o que há de trabalhoso por trás de toda sua beleza.  E esse trabalho desafia constantemente o leitor, embora, estranhamente, não ponha jamais em questão a compreensão do poema. A uma vez, é simples e complexo. Acredito que esse seja um dos segredos da elegância.

Edição: Klick editora, 1998.

 

Erros meus, má fortuna, amor ardente,
Em minha perdição se conjuraram;
Os erros e a fortuna sobejaram,
Que para mim bastava o amor somente.
 
Tudo passei, mas tenho tão presente
A grande dor das cousas que passaram,
Que magoadas iras me ensinaram
A não querer já nunca ser contente.
 
Errei todo o discurso de meus anos,
Dei causa que a Fortuna castigasse
As minhas mal fundadas esperanças.
 
De amor não vi senão breves enganos.
Oh, quem tanto pudesse, que fartasse
Este meu duro Gênio de vinganças!
 

 

 

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