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Archive for Junho, 2011

Voltaire Literário é parte da sequência completada por Voltaire Político e Voltaire Historiador, lançada pelo professor Marcos Antônio Lopes. Também tenho os outros dois, pretendo ler em seguida. São todos pequenos, de menos de 150 páginas, e poderiam mesmo fazer um só volume. Aliás, li em algum lugar que esse três livros são, originalmente, a tese de doutorado do autor, chamada Voltaire: a História, o Príncipe e a Virtude.

Basicamente, Voltaire Literário trata dos aspectos historiográficos presentes nos contos do filósofo. São cinco capítulos, organizados tematicamente, que buscam demonstrar que, nesses contos, há mais do que divertimento, ridicularização e ataques à Igreja. Com certeza, como em toda sua obra, a ficção de Voltaire é repleta de características circunstanciais, que estavam, perfeitamente, nos propósitos do autor. O que o professor Marcos Antônio parece fazer é evidenciar, por trás desses aspectos rasos do texto, relacionados, por exemplo, à bajulação da duquesa de Maine ou ao escárnio de jesuítas, o debate teórico que se desenrolava sobre como se deve escrever a história.

Voltaire participa da transformação que, no século XVIII, se definiria como uma espécie de secularização do pensamento histórico, no sentido de que a história providencialista, representada, entre outros, por Bossuet, sofria, nas palavras do professor, a pressão de impactos particularmente mortais. Nosso filósofo leva ao ridículo a tradição mostrando suas incoerências da maneira, digamos, menos delicada, como em Os Ouvidos do Conde de Chesterfield e o Capelão Goudman, Memnon e Zadig.

As formas que Voltaire dá a seu pensamento sobre história, nos contos, estão contidas no carrossel de desventuras por que passam seus protagonistas. Apresentar a evolução humana como um acúmulo de erros levados a cabo pela ambição desenfreada e o fanatismo dos homens é o modo como o filósofo faz, em Cândido e Zadig, por exemplo, passar diante dos olhos das personagens o mundo como ele é. A exagerada pretensão realista de Voltaire, que, para mostrar que este não é o melhor dos mundos, mostra que é o pior, parece ser uma resposta à visão idealista da história sagrada, e, na verdade, a qualquer visão que esconda do homem seu destino funesto nesse vale de lágrimas.

Para o Príncipe das Luzes, a história carece de sentido, pouco mais é que séculos e séculos de corrupção, vício e pretensão, entrecortados por pequenos períodos de grandeza encabeçados por homens como Júlio Cesar e Luís XIV. O único progresso que há, e isso torna desesperadoramente lenta a evolução humana, é levado a cabo por espíritos esclarecidos, que possuem uma visão acima da comum dos homens. Tal interpretação da história insere Voltaire, segundo a tese do professor Marcos Antônio, na tradição historiográfica clássica, pois se por um lado a presença de Deus na história do homem é combatida, por outro o providencialismo é posto nas mãos de monarcas ilustrados. Assim é que o personagem do príncipe figura na maior parte de seus contos, de modo que tais estórias possam ser colocadas na memória dos espelhos de príncipes, mas em formato iluminista. Isso faz com que a ruptura proposta por Voltaire em relação ao pensamento tradicional, embora tenha tido um valor imenso, não tenha sido total.

Humanizando os monarcas consagrados, destruindo mitos religiosos e nacionais, expondo as mazelas dos homens nesse mundo deveras prosaico, os contos de Voltaire são a imagem da ficção iluminista que constitui, em sua guerra à tradição, como diz Paul Hazard, citado por Marcos Antônio Lopes, a maior modificação que a literatura alguma vez terá sofrido. Talvez isso explique por que o autor tenha preferido os contos, uma vez que a obra ficcional de Voltaire seja muito maior que o número de contos que escreveu, compreendendo muito de poesia, epopeia e teatro. Talvez os contos filosóficos, sendo um gênero praticamente inventado pelo filósofo no calor do combate, correspondam mais facilmente às expectativas do autor acerca da relação entre filosofia e literatura. O conto voltairiano, de fato, se presta melhor a ilustrar o deslocamento operado na literatura iluminista, quando a estética dá lugar à crítica, ao chicote banhado em sal e vinagre (adorei essa expressão). Apesar de tudo o que os contos oferecem, eles não são, no entanto, mais que uma parte do Voltaire literário.

Ilustração para Zadig, ou O Destino. s/d

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Questionário

Não gosto de questionários e afins. Mas, na falta de algo melhor, vou responder a esse que achei num blog. Consiste em 30 respostas relacionadas a livros marcantes. Não entendi o porquê do formato de calendário do questionário original. Sei lá.

Naturalmente, algumas perguntas têm várias respostas possíveis. Procurei obedecer a um critério simples: a primeira resposta que me veio à cabeça. Como, no entanto, nunca acreditei na espontaneidade como coisa verdadeira, algumas respostas teriam sido mais reais, e justas, se fossem mais refletidas. Mas não vejo finalidade nisso, é impossível responder à maioria das questões, e, de qualquer forma, uma resposta que buscasse precisão só valeria mesmo para esta tarde.

01 – Um livro que te surpreendeu completamente

Fogo Pálido, de Nabokov. Surpreendeu-me negativamente. Imediatamente após ler Lolita, que, na época, adorei, peguei esse fogo pálido que matou todo fogo que ficara da leitura anterior. Tenho até vontade de relê-lo para saber se manteria a opinião. Livro muito chato.

02 – Um livro que te fez chorar

Entre outros, Os Trabalhadores do Mar, de Victor Hugo. É belíssimo, tem cenas magníficas. Fiquei fascinado quando li. Faz tempo. Agora, estou meio embrutecido pelas leituras acadêmicas, etc., mas antes era fácil um livro me fazer chorar.

03 – O melhor livro que você leu nos últimos 12 meses

Pergunta chata. Não lembro nem o que jantei ontem. Mas o primeiro ótimo que vem vem à mente é O Talismã, de Walter Scott. Sou apaixonado por Walter Scott, não há como um livro dele não me arrebatar.

04 – Um livro que você leu mais de uma vez

O Retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde. Por razões óbvias.

05 – O primeiro livro que você lembra ter lido

Quando comecei a ler de verdade, o primeiro que peguei foi Romeu e Julieta, e uma edição bem legal. Mas há uma pré-história, em que eu lia os livrinhos da coleção Aventuras Fantásticas, de Ian Livingstone. Era ótimos. Você participa ativamente da história, escolhendo o rumo da história de acordo com as opções que se apresentam, e correndo sério risco de, fracassando na jornada, não chegar ao fim do livro. Não sei o primeiro, mas o principal dessas instigantes leituras, e o mais difícil, foi A Prova dos Campeões.

06 – Capa de livro favorita

Sou um leitor chato quanto a isso. Não gosto de livros descartáveis, não gosto de capas moles e não suporto capas em que há figuras humanas, ainda mais quando se pretende representar algum personagem ou cena do livro. A não ser em casos de extrema necessidade ou demonstração de gratidão, eu nunca leio um livro em cuja capa há desenho de pessoas ou imagens pretensamente impactantes. Eu desprezo as edições que abusam das capas; desprezo e detesto. Minha capa de livro favorita é aquela dura e sem nada, de preferência com revestimento em tecido, como alguns volumes da antiga Jackson. Gosto especialmente quando o nome do livro é reservado à lombada, deixando a capa mesmo vazia.

07 – Um livro que achou difícil de ler

O texto mais difícil que já li foi um capítulo da Ética, de Espinosa, quando entrei na Universidade. Mas como o assunto aqui é livro inteiro, acredito que tenha sido Madame Bovary, de Flaubert, pois li quando com 14 ou 15 anos, e dei de cara com um realismo difícil a minha inexperiência.

08 – Um livro que todos deveria ter lido pelo menos uma vez

Óbvio: O Pequeno Príncipe. Na verdade, todos efetivamente lêem esse livro uma vez. O problema é que deveriam ler periodicamente, porque conheço poucas pessoas que parecem tê-lo aproveitado.

09 – A melhor cena que você já leu

Quasímodo balançando-se nos sinos, em Notre-Dame de Paris. Victor Hugo é o mestre das grandes cenas. Talvez essa não seja a melhor, por assim dizer, mas é uma bem marcante.

10 – Um livro que você não terminou de ler

Isso só aconteceu duas vezes na minha vida. Uma vez involuntária, outra voluntária. A voluntária foi com A Condição Humana, de Malraux. Não suportei, tive que por de lado meus princípios, quebrar meu código de honra.

11 – Seu tipo de livro favorito

Poesia classicista.

12 – Um livro que te faz lembrar alguém

O Piano, de Jane Campion.

13 – Um livro que você gostaria que virasse filme

Pergunta legal. Seria ótimo se houvesse um filme de Moll Flanders, de Defoe, se ainda não há. O livro é bom, mas não é ótimo; seria muito provável que o filme viesse a ser melhor.

14 – Personagem de livro favorita

Complicado dizer. Não vou cair no clichê de dizer Henry Wottom. Fico com Rodion Romanovich Raskolnikov, de Crime e Castigo. Clichê também, não adianta.

15 – Um livro que te conforta

Os bons livros todos. Se for para citar um, vou de Charneca em Flor, de Florbela Espanca.

16 – Um livro que você gostou e que virou filme

Morte em Veneza, de Thomas Mann. Virou filme em 1971, com Visconti.

17 – Um personagem de livro que você gostaria de chamar de seu

O Petrônio de Quo Vadis, Henryk Sienkievicz.

18 – Um início de livro que você gosta

Lolita, luz da minha vida, labareda em minha carne blá blá blá.

19 – Um livro que mudou sua cabeça sobre determinado assunto

Os Contos de Voltaire, e também Cândido, mudaram minha maneira de rir dos outros.

20 – Um final de livro surpreendente

Acho muito legal o final do livrinho Os Ratos, de Dyonélio Machado.

21 – Um livro guilty pleasure

Prazer culpado? Nenhum. Não tenho esses escrúpulos todos. Só um livro que desafiasse todos os sentimentos humanos, sem deixar de causar prazer, entraria aqui – mas ainda não vi esse livro.

22 –  Casal literário favorito

Sem dúvida, os Macbeth.

23 – Uma personagem irritante

O Bobo, do livro homônimo de Herculano.

24 – Uma citação de livro que você gosta

‘Belo mundo de sonho e de ilusão / Que vai morrendo como os dias vão / Como morrem os dias de verão.’ (Alice do outro lado do espelho, Lewis Carroll)

25 – 5 livros que estão na sua pilha de ‘vou ler’

Essa minha pilha é imensa. Compro mais rapidamente que leio, e tem ainda as bibliotecas… bom, mas os cinco que me vêm primeiro à mente: Moby Dick, de Melville; A Divina Comédia, de Dante; Ana Karenina, de Tolstói; O Corvo, de Poe; Os Miseráveis, Victor Hugo.

26 – Um livro que você gostaria de ter escrito

Eu queria ter escrito El Cid, de Corneille. Mas que pergunta ridícula.

27 – Se um livro tem… você sempre lê

Não entendi a pergunta, mas é necessário, para eu ler, que um livro tenha um renome mínimo para que a falta de expectativa não destrua minha leitura. No entanto, o mais importante, para mim, em um livro, é a beleza da escrita.

28 – Um livro que você gostaria de ler mas, por algum motivo, não leu

Ora, todos os que estão na pilha ‘vou ler’. Mas Onegin, de Pushkin, não o li por um motivo especial: só achei em russo e alemão para vender. Nada num idioma acessível.

29 – Um escritor que você adora e um que você detesta

Adoro José de Alencar, detesto Moacyr Scliar. Na verdade, só li dois livros de Scliar. Não é o suficiente para dizer que o detesto, mas já o é para dizer que não gosto.

30 – O que você está lendo agora

À noite, O Dictionnaire Philosophique, de Voltaire; de dia, Noite na Taverna, de Álvares de Azevedo. E um monte de coisas infelizes para a faculdade.

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Muitas vezes, as imagens que formamos na nossa cabecinha durante o colégio influenciam as razões com que justificamos nosso desgosto por certos autores. O mais prejudicado com isso é José de Alencar; o mais beneficiado, Machado de Assis. É claro que, bem como o professor de História tende a ensinar com mais entusiasmo aquilo de que gosta mais, o professor de literatura reproduz menos opiniões congeladas sobre os autores que mais gosta; acredito, portanto, que tive o azar de ter, no colégio, somente professores de literatura que não gostavam de autor algum. Ou melhor: professores cujo gosto era determinado pela conveniência de estereótipos dados. Pude, pelo menos, não deixar que tais imagens tomassem conta do meu gosto e, desde que comecei a ler sistematicamente, guardei meu juízo sobre algum autor para somente depois da leitura de pelo menos um livro.

Li cedo Álvares de Azevedo. Tinha 15 quando peguei A Lira dos Vinte Anos, um dia após ter tido aula sobre romantismo. Minha expectativa por tristeza e solidão deu de cara com a intensidade de paixões gigantes, com o lirismo de sonetos lindos. Naturalmente, nada do que eu queria. Mais tarde, no entanto, eu perceberia que lera um livro muito bom, e hoje tenho vontade de relê-lo. Isso serviu para eu saber, de início, que os autores são muito maiores do que aquilo que se pode dizer sobre eles.

E, na verdade, com a leitura de Macário, que fiz só agora, alguns anos depois, vejo: que é esse o poeta de que falava minha professora; que era esse o livro que eu estava procurando quando peguei a Lira; que era a Lira o que eu procurava agora quando peguei Macário.

De qualquer forma, Macário é um ótimo texto. É o decadentismo puro, que não espera mais nada do mundo. De alma gelada, mas de palavras tensas, o personagem ultrapassou há muito a fragilidade de Werther, suicidou em espírito e fez-se amigo do Diabo. Se eu tivesse qualquer propriedade para falar de Fausto, aqui viria uma comparação. Mas o fato é que a sensibilidade de Werther está em seu amigo, o suicida Penseroso. O gênio embotado de Macário dedica-se a três temas: morte, vinho e mulheres. – Bom dia, Macário. Onde vais? – Vou morrerNão há melhor túmulo para a dor que uma taça cheia de vinho ou uns olhos cheios de languidez. São passagens que caracterizam as sedes jamais satisfeitas do protagonista.

Quero dizer en passant que, se alguém me pedisse uma dica de boa leitura vampírica, não tenho mais dúvida de que Macário é a melhor opção. Não quero falar da diarréia de romances de vampiro que saiu nos último tempos. Mas a personalidade do personagem de Álvares de Azevedo, que mistura um profundo desgosto e falta de esperança a uma busca desalmada e sem freios pelo desvario, angústia a que a morte não é uma alternativa, faz dele, para mim, um vampiro genuíno.

Macário não é um hedonista. Não quer aproveitar a existência, não quer viver todas as experiências; sua vida não lhe tem valor algum. O fio de vida que o liga ao mundo é sustentado por seu ceticismo, em uma espécie de inércia oriunda de uma desilusão profunda com o mundo. Esse ceticismo, o gelo de seu sangue, é manifestado principalmente por seu ateísmo, o que atesta a óbvia influência do autor pelo romantismo francês, que jamais superou o catolicismo – esse, ao meu ver, é um ponto fraco da tradição romântica latina. Também a ideia que Macário faz da arte é cética: A arte degenerou em ofício e o gênio suicidou; (…) nos mangues e nas margens do Amazonas e do Orenoco há mais mosquitos e sezões do que inspiração; Amo as mulheres e odeio o romantismo. Na discussão com Penseroso, Segunda Parte, manifesta os arroubos de um espírito que não pode ser contido pelo romantismo convencional, e o toma como uma máscara à condição torturante do homem num mundo degenerado.

Eis que já vai ficando longa a notinha. Que se me perdoe a ligeireza das opiniões: certamente, é um ótimo livro.

John Contable, Seascape with rain cloud (1827).

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Uma biografia de Joana d’Arc é coisa de se estranhar. Não precisa ser um grande conhecedor de História para saber que a Donzela de Orléans é um daqueles personagens cuja vida oscila entre os fatos e o mito. Embora seja impossível dizer que Joana d’Arc não tenha existido, praticamente tudo o que se fez a seu respeito corresponde a imagens condicionadas pelas tendências artísticas (entre outras tendências) dos séculos adiante  – aliás, para a categoria ‘Ainda não li: Joan of Arc in French Art and Culture: 1750 – 1855, Nora Heimann.

O estudo de Colette Beaune pretende, no entanto, analisar as representações que se fizeram de Joana d’Arc durante sua vida. E, com isso, demonstra que as imaginações sobre a heroína francesa povoaram mentes já durante sua existência. Santa, feiticeira, guerreira, bruxa, prostituta são estereótipos da época e, se pensarmos bem, compreendem tudo o que será feito depois a respeito da Donzela. O fato de ter sabido tão bem compreender as idéias dos contemporâneos a respeito de Joana não faz com que Beaune caia no engano contrário, e faz uma erudita demonstração das santas anteriores, guerreiras ou não, que tornaram fértil o terreno que veria nascer o mito de Joana. Ademais, não deixa de mencionar as virgens guerreiras que vieram após 1435, no historiador esforço de mostrar que Joana não foi única.

O livro se organiza em três partes, referentes a três fases da vida da protagonista. Em cada parte, os capítulos abordam de forma bastante ampla temas associados à santa. Isso resulta, para além de numa boa biografia, num apanhado de temas medievais muito interessantes. Porque, de fato, Colette Beaune faz da biografia de Joana d’Arc um ótimo livro de história do século XV. Isso, sob critérios historiográficos, atesta a competência de seu esforço.

É claro que (embora eu, como estudante de História, devesse ser vacinado contra isto) as divagações em torno de detalhes ao meu ver desprezíveis, o eterno receio de conclusões precipitadas e a busca pela exatidão factual me irritaram um pouco durante a leitura. Ambos, no entanto, são motivos do gênero biográfico, de modo que eu já deveria esperar esses pequenos atritos ao abrir o livro. Portanto, nada disso compromete a qualidade do estudo. É um bom livro.

Jules Bastien-Lepage, Jeanne d'Arc (1879).

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