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Archive for the ‘Victor Hugo’ Category

E os prêmios de melhores obras lidas nesse primeiro semestre de 2012 vão para:

– Romance: O falecido Mattia Pascal, Luigi Pirandello;

– Conto/novela: O aniversário da Infanta, Oscar Wilde;

– Poesia: La Araucana, Ercilla;

– Teatro: Heraclius, Pierre Corneille;

– Acadêmico: O Rei-máquina, Jean-Marie Apostolidès;

– Outro: Poética, Aristóteles.

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E os prêmios de melhores obras lidas no segundo semestre de 2011 vão para…

 

Romance: Orgulho e Preconceito, Jane Austen;

Conto/novela: Um homem célebre, Machado de Assis;

Poesia: Sonetos, Camões;

Teatro: Édipo Rei, Sófocles;

Acadêmico: O Romantismo, Jaime Guinsburg (org);

Outro: Victor Hugo – uma biografia, Graham Hobb.

 

Joseph Wright of Derby, Índia viúva, 1783-84.

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Esse pequeno livro contém alguns textos de Émile Verhaeren, literato e crítico belga falecido no início do século XX. O principal é uma defesa de Racine contra seu engessamento pela tradição escolar, que tende a circunscrever todos os clássicos franceses sob a poética de Boileau. Verhaeren demonstra como Racine viola os preceitos para obter os melhores efeitos e elevar-se além do classicismo. Viver espiritualmente ao futuro de sua época é a característica com que o crítico identifica o gênio, alma dos artistas imensos como Dante e Shakespeare. A segunda parte do livro é sobre a genialidade. Diferente de um artista talentoso, a qualidade do gênio não está na habilidade com que se destaca na arte de ser belo ou sagaz, mas em sua intuição, que o conduz por um caminho desconhecido, justamente por ser um caminho de outro tempo. Por isso diz serem os gênios revoluções, cataclismos.

Acho tudo isso muito bonito. Quanto mais se for para opor-se à ideia antiga de que o intelecto é produto puro de seu meio (o que daria razão a quem não levasse Racine a sério). Mas acho que a genialidade está muito mais dentro das obras dos autores que no efeito que elas causarão nas gerações posteriores. Seria muita pretensão eu chamar gênios somente aqueles que fizeram a arte atual ser o que é, que influenciaram decisivamente na história da cultura. Verhaeren tem o encanto de estar mergulhado em uma ideia filosófica da história, segundo a qual o gênio faz andar o tempo numa espécie de marcha para o universal. Seu fascínio pelo cânone, porém, faz com que ignore a possibilidade de haver gênios não-descobertos. Se revolucionar é preciso, o gênio desconhecido, de obras perdidas, não mereceria tal denominação. Penso em Vivaldi, por exemplo, que só foi verdadeiramente descoberto no início do século XX.

Creio que a obra diga mais sobre a genialidade do autor que a disposição das gerações posteriores a imitá-lo. O próprio texto de Verhaeren, apesar de tudo, me diz como posso identificar os melhores entre todos os muito bons: o gênio de verdade transforma a realidade em milagre.

 

 

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Um poema de Victor Hugo

Tradução minha de um poeminha de Hugo. Ainda ele. Na verdade, sei que a tradução não é boa, mas é praticando que se melhora.

 

Printemps

Voici donc les longs jours, lumière, amour, délire ! 
Voici le printemps ! mars, avril au doux sourire,
Mai fleuri, juin brûlant, tous les beaux mois amis ! 
Les peupliers, au bord des fleuves endormis,
Se courbent mollement comme de grandes palmes ; 
L’oiseau palpite au fond des bois tièdes et calmes ; 
Il semble que tout rit, et que les arbres verts
Sont joyeux d’être ensemble et se disent des vers. 
Le jour naît couronné d’une aube fraîche et tendre ;
Le soir est plein d’amour ; la nuit, on croit entendre, 
A travers l’ombre immense et sous le ciel béni, 
Quelque chose d’heureux chanter dans l’infini.

 

Primavera

Eis então os dias longos, luz, amor, delírio!
A primavera! Março, abril de doce sorriso,
Maio de flores, junho fogoso, belos amigos!
Choupos na margem dos rios adormecidos,
Curvam-se moles como palmeiras enormes;
Pássaros se agitam no fundo dos bosques;
Parece que tudo sorri, e que se divertem,
As árvores juntas se dizendo poesia.
Coroado duma branda aurora, nasce o dia;
A tarde é cheia de amor; à noite, todos sentem
Pela sombra imensa, sob o céu bendito,
Alguma coisa feliz cantar no infinito.

 

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Não li muito de Victor Hugo ainda. Dois romances, uma novela e uma recolha de poemas. Mas ele tem sido o escritor de minha vida; jamais me envolvi tanto em uma leitura como quando li suas obras. Na verdade, sua escrita se presta bastante a isso, como a de todo bom romântico. Dias atrás, li um dos capítulos do livro de Robert Darnton, O grande massacre de gatos, sobre a mudança da relação entre autor e leitor operada em Rousseau. É muito interessante, uma daquelas coisas tão óbvias que nos escapam. Em Voltaire, por exemplo, os personagens são instrumentos do escritor para a transmissão de suas ideias, de sua mensagem, de sua tentativa de alcançar uma beleza elevada, etc, e o leitor o testemunha; em Rousseau, para Darnton, as coisas mudam porque a riqueza está na entrega do autor, de modo que sua obra transmita sua subjetividade e que o leitor, para aproveitá-la, tenha ele também de entregar-se às emoções que a obra suscite. É uma coisa que talvez, hoje, seja banal, mas ajuda a não esperarmos de classicistas o que eles não queriam dar e a explicar um pouquinho por que é tão fácil ter afetos pela literatura romântica.

Hugo é um gigante em sua grandiloquência. As visões do infinito encontram em sua obra caracterizações fantásticas. Certamente, nem tudo é liberação de gênio, podia escrever tão impecavelmente quanto um clássico, seguia um metro, tinha um estilo, era um esteta meticuloso. Mas acho que seu tesouro está em seu idealismo. Em relação aos homens, à literatura, a tudo. Esse idealismo, ele o apresenta bem neste texto, prefácio à peça Cromwell, Do grotesco e do sublime, tido como o marco inicial do romantismo francês, de 1826.

Evidentemente, não vou resumir a mirabolante história da cultura que Hugo cria, dividindo a produção humana nos tempos entre lírica, épica e dramática, sendo a última a modernidade literária, época do gênio romântico e da mistura dos gêneros. É um texto pequenino, embora esteja além das dimensões de um prefácio normal. Sua proposta e sua beleza é que são enormes. Chamou especialmente a minha atenção de estudante de História o fato de Hugo situar a História na segunda fase dessa evolução dos gêneros. Para ele, a História, como gênero literário e ramo do conhecimento, é uma das formas da epopeia. Permite-se tal associação sob a alegação de que a cronologia não expulsa a poesia, e Heródoto é também poeta épico. A diferença, para mim, é que, enquanto para Victor Hugo a Poesia é uma criação revestida de vida natural, uma ilusão com prestígio de verdade, a História, talvez seja possível dizer, é uma vida revestida de criação, uma verdade com em forma de ilusão. Daí a afirmação do autor de que a finalidade da Poesia seja a criação, e a da História, a ressurreição. Certamente, há nisso toda a riquíssima filosofia da história que desponta no romantismo e que é, com efeito, o épico disso tudo.

O prefácio está publicado em um livrinho separado, de tradução de Célia Berrettini, pela Perspectiva. Achei excessiva a preocupação didática das numerosas notas de rodapé.

The Grove or Admiral's House, John Constable, 1822.

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Abaixo, tradução minha de um discurso (ou parte dele) pronunciado por Victor Hugo na Assembleia Nacional Legislativa em 9 de julho de 1849.

Destruir a miséria

Não sou, senhores, desses que acreditam que se possa acabar com o sofrimento no mundo; o sofrimento é uma lei divina. Mas sou desses que pensam e afirmam que se pode destruir a miséria.

Notai, senhores, não digo diminuir, limitar, circunscrever, digo destruir. A miséria é uma doença do corpo social como a lepra era uma doença do corpo humano; a miséria pode desaparecer como a lepra desapareceu. Destruir a miséria! Sim, é possível! Legisladores e governantes devem almejá-lo constantemente; pois, em tal matéria, enquanto todo o possível não é feito, o dever não é cumprido.

A miséria, senhores, e abordo aqui o coração da questão, quereis saber onde ela está? Quereis saber aonde ela pode ir, aonde ela vai? Não digo na Irlanda, não digo na Idade Média, digo na França, digo em Paris, no tempo em que vivemos. Quereis fatos?

Por Deus, não hesito em citá-los, esses fatos. São tristes, mas é forçoso revelá-los; e, vede bem, se é preciso dizer todo meu pensamento, eu queria que ele saísse desta assembleia, e se preciso, eu faria uma proposição formal, um grande e solene levantamento sobre a situação real das classes trabalhadoras e padecentes na França. Queria eu que os fatos viessem por inteiro à luz. Como queremos curar o mal se não examinamos as feridas?

Eis os fatos:

Há, em Paris, nesses subúrbios de Paris a que, pouco tempo atrás, o vento das agitações insurgia tão facilmente, ruas, casas, esgotos onde famílias, famílias inteiras, vivem desarranjadas; homens, mulheres, meninas, crianças, não tendo por camas, não tendo por cobertores, chego quase a dizer por roupas, mais do que pilhas infectas de panos em decomposição, panos colhidos na lama das fronteiras da cidade, espécie de estrume onde criaturas se enfiam à viva força para escapar ao frio do inverno.

Eis um fato. Quereis outros? Dias atrás, um homem, meu Deus, um infeliz homem de letras, pois a miséria não poupa mais as profissões liberais que as manuais, um infeliz homem morreu de fome. Morreu de fome, ao pé da letra. E constatou-se, depois da morte, que não comia há seis dias.

Quereis algo mais doloroso ainda? Mês passado, durante a recrudescência do cólera, encontrou-se uma mãe e suas quatro crianças procurando seu alimento nos detritos imundos e pestilentos das sepulturas de Montfaucon!

Bem, senhores, digo que essas são coisas que simplesmente não devem ser; digo que a sociedade deve empregar toda sua força, toda sua solicitude, toda sua inteligência, toda sua vontade, para que tais coisas não sejam! Digo que tais fatos, em um país civilizado, constrangem a consciência de toda sociedade; digo que me sinto, eu que falo, cúmplice solidário, e que tais fatos não são apenas erros perante o homem, mas crimes perante Deus!

Eis do que sou convicto, eis por que eu queria convencer todos que me escutam da alta importância da proposta que vos é submetida. Não é mais que um primeiro passo, mas ele é decisivo. Eu queria que esta assembleia, maioria e minoria, não importa, não conheço maioria e minoria em questões tais, eu queria que esta assembleia não tivesse mais que uma só alma para alcançar este grande fim, este fim magnífico, este fim sublime: a abolição da miséria!

E, senhores, não me direciono somente à vossa generosidade, direciono-me ao que há de mais sério no sentimento político de uma assembleia de legisladores! E, a esse respeito, um última palavra.

Senhores, como eu vos dizia, vós, com o concurso da guarda nacional, da armada e de todas as forças vivas do país, reforçastes o Estado mais uma vez abalado. Não recuastes diante de perigo algum, não hesitastes diante de qualquer dever. Salvastes a sociedade regular, o governo legal, as instituições, a paz pública, a civilização mesma. Fizestes uma coisa considerável… E, no entanto, nada fizestes!

Não fizestes nada, insisto nesse ponto, enquanto a ordem material reforçada não tenha por base a ordem moral consolidada! Nada fizestes, enquanto o povo sofra! Nada fizestes, enquanto haja abaixo de vós uma parte do povo que desespera! Nada fizestes, enquanto aqueles que estão na flor da idade e que trabalham possam estar sem pão! Enquanto aqueles que são velhos e trabalharam possam estar sem asilo! Enquanto a usura devore nossas campanhas, enquanto se morra de fome nas nossas cidades, enquanto não haja leis fraternais, leis evangélicas que de toda parte venham em ajuda às pobres famílias honestas, aos bons camponeses, aos bons trabalhadores, à gente de coração! Não fizestes nada, enquanto o espírito de revolução tenha por auxiliar o sofrimento público! Nada fizestes, nada, enquanto, nessa obra de destruição e de trevas, que continua subterraneamente, o celerado tenha por colaborador necessário o infeliz!

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Para Löwy e Sayre, o romantismo é a crítica nostálgica às condições capitalistas de vida. O ensaio dedica-se à catalogação de autores românticos conforme a forma de sua crítica. Assim, há o romantismo restitucionista, o romantismo conservador, o romantismo fascista, o romantismo resignado, o romantismo liberal, o romantismo revolucionário, o romantismo libertário e o romantismo marxista. Todos eles têm em comum a rejeição do capitalismo e a idealização de uma sociedade passada – ou passada e futura – embora guardem notável diferença de projetos políticos. Os valores românticos promovidos contra aqueles da sociedade industrial referem-se ou à exploração do mundo interior das emoções e da imaginação em oposição à mecanização das relações humanas, ou ao sentimento de totalidade em relação a um mundo exterior, que pode ser a natureza ou a humanidade, como um sonho recriador de uma sociabilidade pura da comunidade humana, fragmentada na modernidade.

O estabelecimento de todos aqueles tipos de romantismo busca dar sentido a um conceito aparentemente contraditório. Como é possível que chamemos românticos, ao mesmo tempo, Chateaubriand e Michelet? Por que participam do mesmo movimento intelectual defensores de ideias tão díspares? Bem, todos criticam o mundo como está, e exaltam o mundo como foi.

Não acho válido questionar a teoria a que o autor oferenda seu trabalho, e não o deixaria de ler por isso. Prefiro antes criticar seu texto, e sua argumentação faz todo sentido. O problema é que ela não me diz muito. Basicamente, o texto pretende provar uma ideia que está fixa a cada palavra: a de que os românticos eram anticapitalistas. Para tanto, os autores vão às últimas consequências: o estabelecimento da tipologia faz com que, dentro do romantismo, seja enquadrada boa parte da produção cultural desde o início do século XVIII, ou até antes, até os dias atuais. Porque, de fato, dizer que o gesto caracterizador do movimento é uma crítica nostálgica à vida na sociedade capitalista moderna faz com que haja romantismo inclusive no… classicismo. E, não menos, nos movimentos do século XX, como os autores mencionam. Sim, eu entendo, tudo isso é romântico. Mas talvez exista aqui alguma confusão entre o movimento e o adjetivo. O texto faz sentido, como eu disse, mas gira em torno de si mesmo, a própria proposta é o assunto e o termo. A tipologia é interessante, mas não serve para nada. Ou melhor: para ninguém que não partilhe do vínculo teórico do autor. Acho isso um grande defeito, de modo que a obra ensina mais sobre marxismo do que sobre romantismo.

 

Malevich, Branco sobre Branco.

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