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Archive for the ‘Século XX’ Category

Fiquei com uma impressão muito forte desse livro. Por causa das imagens fortes e da atmosfera tensa, a leitura foi acompanhada de um sensível incômodo do início ao fim. Tenho isso de ser psicologicamente afetado pela leitura (na verdade, só considero o livro – ou a leitura – bem-sucedido se me vi afetado de alguma forma). E foi devido à densidade da obra que me demorei um pouco mais do que o normal para um livro tão curto. Depois de já ter percebido do que se tratava, cheguei a pensar: ‘Ainda bem, ainda bem que são só 200 páginas’.

Porque o livro de Remarque é terrível; totalmente bem-sucedido em sua proposta de dar ao leitor a impressão do trauma que viveu a geração do autor durante a primeira guerra mundial. O fato de ser escrito em primeira pessoa torna tudo diferente, assim como o fato de o próprio autor ter combatido na guerra (e diga-se de passagem: do lado alemão, mais massacrado). A obra é a história de Paul Baümer, que entra na guerra aos dezoito ou dezenove anos, vive sua experiência transformadora e morre aos vinte, no final de outubro de 1918, alguns dias antes dias antes de a guerra terminar. Sua morte é banal, e o título do livro vem daí, nada de novo no front. Os laços de companheirismo, bem como toda demais relação humana, são modificados pelas circunstâncias da guerra, de modo que o protagonista sente-se esvaziado de memória, de identidade e de tudo mais que caracteriza um sujeito. Seu grupo de amigos, que vinha desde o colégio, se desfaz. Sem dúvida, é um dos livros mais tristes e marcantes que li.

Edição: L&PM, 2008. Tradução: Helen Rumjanek.

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O livro de Gabrielle Colette me surpreendeu. Nunca tinha lido nada dela, mas, não sei, talvez por nunca ter ouvido grandes elogios por aí, não esperava algo tão forte. Enganei-me, claro. Apesar de não muito falada, Gabreille Colette é uma grande escritora.

A Vagabunda é o romance de um trecho da vida de uma artista do music hall francês do início do século XX. Circunscrita às impressões e devaneios da protagonista, a narrativa é de grande carga emocional, sem, no entanto, tornar-se melodramática em excesso. Tem trechos de grande beleza, sobretudo aqueles em que a sensibilidade da  personagem às nuances do ambiente é posta em evidência (em parte alguma do livro, o leitor deixa de perceber as passagens de estação, a história se passa entre um outono e uma primavera). Além da beleza, e acredito ser este o forte da obra, há grande complexidade psicológica nos dramas da protagonista. Pelo meu estilo de ler, tendo a deixar em segundo plano as queixas existenciais dos personagens, por falta de paciência mesmo. Não pude fazer isso nessa obra, porque a autora usa o cenário e a condição da personagem para salientar os dramas femininos, e o faz com tamanha habilidade que as angústias de Renée Néré juntam à obra muita importância sociológica.

Edição: Abril, 1971. Tradução: Juracy Daisy Marchese.

 

Jacques Humbert, Retrato de Colette aos 23 anos, 1896.

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O primeiro livro de Pirandello que leio. É genial, extremamente divertido e inteligente. Apesar das situações que suscitam ao personagem reflexões profundas sobre a liberdade, a vida e a morte, a obra é entrecortada por cenas muito bem-humoradas, conduzidas por uma escrita leve e fluente (o que se deve à qualidade da tradução). Gostei muito.

Foi escrito nos primeiros anos do século XX, e conta a história de Mattia Pascal, um homem de vida frustrada que vê no jornal a notícia da própria morte. Aproveita-se do engano para abandonar a vida antiga e seguir rumos novos, completamente desprendido das ladainhas dos homens, porque agora era livre para fazer o que quisesse. Ganha dinheiro, inventa outro nome, outra aparência e muda de cidade. Aos poucos, descobre, no entanto, que a vida ficcional que assume não é uma vida realmente, não é, por assim dizer, uma vida como a dos homens vivos. Ao despertar de seu amor por uma mulher simples, compreende cada vez mais que sua liberdade era uma mentira, que a nova identidade que criara era um fantasma. E sabe como resolver a questão: deixando a bengala e o chapéu na beira de uma ponte, simula o suicídio de seu personagem, e volta a sua aldeia natal para desmentir, dois anos depois, sua pretensa morte. As pessoas não lembram de Mattia, e sua esposa está casada com outro homem. Passa, então, uma existência pacata e escreve sua história.

Edição: Abril, 1972. Trad.: Mário da Silva.

Giacomo Balla, Dinamismo de um cão na coleira, 1912.

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É o primeiro livro que leio de Camus. Achei que não fosse gostar, mas até que gostei. É uma obra cheia de metáforas e bastante circunstancial, fortemente relacionada com o contexto da ocupação nazista da França.

A peça passa-se na Espanha e apresenta Cádiz governada pela Peste, que, usurpando o poder de um líder inerte, instaura um regime burocrático esvaziado de sentido. A vida dos cidadãos é submetida pelo império da Peste e sua secretária, de modo que o sofrimento e o desespero tornem-se banais. Na peça, toda dor vem da imposição, pelo terror, de uma ordem administrativa à vida pura (tanto no caráter das reformas do governo da Peste quanto no fato de a Peste ter tido necessidade de tomar o poder para flagelar a cidade). No fim, a chave para derrotar o mal está em vencer o medo que se tem dele, e Camus conclui a obra com a afirmação do homem sobre a ordem que lhe é imposta, como se o regime impusesse uma força histórica e o homem respondesse com uma força eterna.

Camus tem belas palavras, há momentos muito bonitos na obra, mas, no geral, achei tudo muito caricato e muito óbvio. A peça não é comparável às grandes obras dos séculos anteriores, a Peste não se compara às personagens vilãs do classicismo e a angústia dos cidadãos com a conseguinte explosão de ímpeto do fim da peça não se compara a seus equivalentes do romantismo. Mas, se tem algo em que percebo o valor dessa obra, é no vazio que há por trás de tudo: nem o cenário colorido da Espanha, nem a maldade da Peste e a lógica da secretária, nem a resposta dos homens, nem o amor dos protagonistas, nada disso parece muito verdadeiro: o único personagem que parece resumir tudo e carregar o real valor da obra é um, curioso, chamado Nada. É nele, em suas falas e ações, que vejo tudo o que até agora penso de Camus.

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