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Archive for Abril, 2011

A Religiosa é um pequeno romance, publicado em 1796, doze anos após a morte do autor, inspirado, pelo que sei, em certo fato ocorrido na década de 1750. Trata-se de uma religiosa que protesta contra seus votos, e, após tentá-los resilir formalmente,  é submetida a um carrossel de humilhações, castigos e clausuras, em mais de um convento. Resolve, então, levar a público suas angústias através de um relato de sua vida, que usa para apelar a um marquês por intervenção a seu favor junto ao Parlamento de Paris, ou por dar-lhe amparo se fosse necessário fugir. O livro nada mais é que o relato da própria religiosa, dirigido ao marquês de Croismare, prefaciado com a troca de correspondências entre os dois e arrematado com um post-scriptum que, embora busque finalizar o relato, naturalmente não termina a história da pobre moça.

Ficção ou não, o trajeto entre a vida factível de Marguerite Delamarre e a história de Suzanne Simonin, personagem do romance, é difícil de percorrer: sabe-se que Mlle. Delamarre correspondeu-se com o marquês de Croismare, e que este falou em seu favor no Parlamento em 58; o relato da personagem de Diderot, Suzanne, é, portanto, inspirado na história de Marguerite e dirigido ao mesmo marquês, que era amigo do autor. Há detalhes menos importantes, que deixo de lado. O fato é que a identificação para lá de irônica, entre a realidade mascarada e ficção sincera, identificação característica da época, torna o ingênuo trabalho de descobrir a realidade por trás do romance quase nulo. Há uma denúncia evidente no livro de Diderot, sendo ele baseado ou não na vida de uma religiosa real. E, mesmo não sendo Suzanne Simonin mais que uma criação da pena do mesmo homem que introduziu na França a crítica de arte, é fato que ela, ainda que não completamente, existiu ao menos em parte na vida de cada religiosa mantida contra a vontade nos conventos antes, durante e depois de Diderot.

A denúncia do romance é a do vício generalizado nos conventos, representados como uma prisão onde o convívio repetido e muito próximo com outras condenadas acaba levando às formas mais imorais de se passar o tempo – seja abusando do rigor das penitências, seja abusando da inocência das ingênuas. Essa denúncia está contida em outra, maior, que é a do confinamento contra a vontade. Suzanne, constrangida pelos pais a fazer os votos, mesmo após comunicar publicamente que não quer fazer de sua vida uma penitência, que não deseja devotá-la a Jesus Cristo, é levada sob protesto ao convento, onde passa anos sem se conformar a levar uma vida para a qual não tem vocação. A falta de escrúpulos do jogo de interesses do qual Suzanne é vítima é outra dimensão importante da crítica de Diderot: liberdade, razão e direito – as três palavras que resumem o pensamento iluminista – são tudo o que falta na vida da religiosa.

Malgrado todo ataque à instituição católica, com a virulência bem característica do círculo enciclopedista, sua escrita é mais bonita que corrosiva. A ironia de Diderot, nesse romance, é muito fraca, seu veneno é muito evidente para fazer par aos textos de um Voltaire. O sarcasmo, oniprese

nte nessa literatura, é muito pouco sutil em Diderot, de modo que é sempre com pouca surpresa que recebemos as situações que eram para nos afetar de modo cômico ou trágico. Escreve belamente, a certa altura lembra muito Defoe; por isso, o caráter simultaneamente venenoso e belicoso dos contos e novelas das Luzes parece um tanto estrangeiro a seu estilo. Ficou-me uma espécie de promessa de que os escritos filosóficos, os diálogos e a crítica de arte do autor valem muito mais que sua prosa ficcional.

Pablo Picasso, Denis Diderot, 1954.

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Quando peguei o livro de Lepape, esperava uma biografia de Voltaire, uma biografia simples, que me informasse sobre o que de mais saliente se sabe da vida do filósofo, umas interpretações, contextualizações, etc. Mas acabei me deparando com uma obra magnífica de história intelectual do século XVIII.

Partindo da imensa trajetória do escritor, Lepape estende sua análise à transformação do conceito de homem de letras em curso na época. O comprometimento filosófico na luta contra as superstições que mascaram a crueza das coisas tornou-se tão generalizado que transformou a própria idéia de filosofia. O intelectual por excelência, personagem moderno, teria nascido da relação entre esse comprometimento e o estatuto tradicional de homem de letras. É interessante que, mesmo fazendo uso nítido de polarizações entre tradição e novidade, o livro não cai na vala do maniqueísmo redutor. As reflexões, por exemplo, sobre cortes e salões, ou sobre imprensa autorizada e ilegal, não fazem uso de conceitos mofados da historiografia acadêmica e praticamente não há discussão em torno de nomes. O que muito me agrada.

Fluindo quase naturalmente, a obra faz apresentações invulgares sobre as personalidades mais relevantes da intelectualidade coetânea que participou direta ou indiretamente da vida do filósofo, como Montesquieu, Jean-Baptiste Rousseau, Diderot, d’Alembert, La Beaumelle, Fontenelle, Beaumarchais, Jean-Jacques Rousseau, Malhesherbes. De modo que ficamos com a impressão de que a biografia de Voltaire é uma espécie de biografia do século, justificando o fato de a tradição ter chamado ao século XVIII o século de Voltaire.

Mas não é, como pode parecer por minha apresentação desajeitada, um catálogo de clássicos que pretende ser uma reflexão geral sobre um século inteiro. É uma obra modesta, curta, despreocupada em relação às lacunas que uma abordagem honesta necessariamente deixa. Mas também é uma obra gigante, apoiada em documentos, e que trata de assuntos realmente interessantes, como a formação da opinião pública, a preservação da celebridade, e muito mais.

 

Jean Huber, Voltaire racontant une fable.

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As imagens

A imagem do cabeçalho é um detalhe de um quadro de Constantin Hansen, de 1826, em que são retratadas suas irmãs Signe e Henriette lendo. O plano de fundo é um estudo de Watteau, do início do século XVIII. Não raro, acho esses esboços mais interessantes que as obras acabadas. Principalmente esses do rococó. Porque geralmente mostram personagens em ângulos e situações incomuns nos quadros – de costas ou vestindo-se, por exemplo -, e também porque, uma vez que são exercícios, têm o charme da espontaneidade, e essa ligeireza parece que não cobra esforço algum para dar o que tem de melhor. Gosto desses desenhos rápidos, leves e íntimos.

Aqui, alguns outros:

François Boucher, 1742.

Fragonard, "La Coquette", sem data.

Thomas Gainsborough, estudo para a obra 'The Richmond Water-walk'.

Fragonard, "Le Pasha", sem data.

Thomas Gainsborough, "Studies of a cat", sem data.

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