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Archive for the ‘Camus’ Category

É o primeiro livro que leio de Camus. Achei que não fosse gostar, mas até que gostei. É uma obra cheia de metáforas e bastante circunstancial, fortemente relacionada com o contexto da ocupação nazista da França.

A peça passa-se na Espanha e apresenta Cádiz governada pela Peste, que, usurpando o poder de um líder inerte, instaura um regime burocrático esvaziado de sentido. A vida dos cidadãos é submetida pelo império da Peste e sua secretária, de modo que o sofrimento e o desespero tornem-se banais. Na peça, toda dor vem da imposição, pelo terror, de uma ordem administrativa à vida pura (tanto no caráter das reformas do governo da Peste quanto no fato de a Peste ter tido necessidade de tomar o poder para flagelar a cidade). No fim, a chave para derrotar o mal está em vencer o medo que se tem dele, e Camus conclui a obra com a afirmação do homem sobre a ordem que lhe é imposta, como se o regime impusesse uma força histórica e o homem respondesse com uma força eterna.

Camus tem belas palavras, há momentos muito bonitos na obra, mas, no geral, achei tudo muito caricato e muito óbvio. A peça não é comparável às grandes obras dos séculos anteriores, a Peste não se compara às personagens vilãs do classicismo e a angústia dos cidadãos com a conseguinte explosão de ímpeto do fim da peça não se compara a seus equivalentes do romantismo. Mas, se tem algo em que percebo o valor dessa obra, é no vazio que há por trás de tudo: nem o cenário colorido da Espanha, nem a maldade da Peste e a lógica da secretária, nem a resposta dos homens, nem o amor dos protagonistas, nada disso parece muito verdadeiro: o único personagem que parece resumir tudo e carregar o real valor da obra é um, curioso, chamado Nada. É nele, em suas falas e ações, que vejo tudo o que até agora penso de Camus.

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