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Archive for the ‘Século XVI’ Category

La Araucana é um poema épico escrito na segunda metade do século XVI por Dom Alonso de Ercilla y Zuñiga, nobre que participou pessoalmente das campanhas de conquista das terras americanas onde hoje é o Chile. Dividido em três partes que totalizam mais de oitocentas páginas em versos decassílabos, o poema narra a guerra entre espanhóis e araucanos, povo guerreiro cuja resistência equivale em heroísmo à intrepidez dos conquistadores.

Pois, o que eu esperava era não mais que um elogio à bravura dos heróis de guerra da Espanha. É claro que o poeta não negligencia esse louvor, mas o que surpreende é que a maior parte do poema seja dedicada a eternizar a glória dos autóctones e seus próprios heróis. La Araucana é dedicada à memória do povo inimigo dos conquistadores, embora estes, obviamente, também sejam retratados com todas as qualidades e ações de um Aquiles ou de um Odisseu. Outra coisa que impressiona é o fato de o próprio poeta ser um dos personagens, coisa, até onde sei, incomum no gênero épico. Ele mesmo luta, descansa e discursa – inclusive, há parte em que o poeta narra a si mesmo escrevendo o próprio poema.

Gostei bastante. Apesar da fama de o épico ser maçante, achei um prazer ler Ercilla. É uma leitura rápida, a despeito do tamanho característico do gênero, e fácil – o espanhol do autor é bastante acessível mesmo para leitores não iniciados na língua como eu. De resto, procede a crítica que Voltaire faz, em seu Ensaio sobre a poesia épica, de que o maior problema do poema de Ercilla seja fazer falar em decassílabos tão bonitos e esmerados indígenas incultos.

Edição lida: Buenos Aires: EMECÉ, 1945.

 

Bartolomé Esteban Murillo, Retrato de cavalheiro em gola fechada, c. 1670.

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Stendhal é mais famoso por O Vermelho e o Negro, Napoleão e Do Amor, nenhum dos quais li ainda. Peguei Crônicas Italianas, que me ganhou pela curiosidade desperatada pelo título.

As crônicas contidas no pequeno volume são de autoria de Stendhal e têm como personagens, sobretudo, figuras reais. Foram publicadas em diversos periódicos e reunidas postumamente por seu primo Romain Colomb. Stendhal foi cônsul na Itália, quando teve ocasião de ler vasto material de história das cidades da península, tanto impresso quanto manuscrito. Sabe-se que mandou copiar muitas histórias dos séculos XVI e XVII encontradas em suas pesquisas, material que resultou em quatorze volumes hoje guardados na BNF.

As Crônicas Italianas são, portanto, escritos seus inspirados por essa busca por conhecimento dos costumes de uma época que o apaixonou, tendo em vista seus outros escritos sobre o Renascimento italiano e suas palavras nas próprias crônicas.  São seis, as crônicas, quatro das quais se passam no século XVI, uma no XVIII e uma no XIX. Relatos curtos de histórias envolvendo paixão, intriga e morte nas cortes papais. Assassinatos encomendados, emboscadas e suicídios são constantes. Damas e princesas de beleza sobre-humana prometidas a nobres que não amavam, príncipes celerados, cardeais poderosos, bandoleiros e aventureiros de alma heroica são os personagens com que o autor constrói esse cenário de mascaradas. Mas o destaque são os introitos, onde Stendhal faz pequenas ponderações tangentes ao assunto da crônica, como em Os Cenci, em que introduz algumas ideias sobre o mito de Don Juan, e em A Duquesa de Palliano, em que fala brevemente sobre paixão na Itália.

As crônicas reunidas no livro são as seguintes: A Abadessa de Castro, Vitória Accoramboni, Os Cenci, A Duquesa de Palliano, San Francesco a Ripa, Vanina Vanini.

Edição: Otto Pierre Editores, São Paulo; Amigos do Livro, Lisboa; Éditions Ferni, Paris, s/d (197-). Sem indicação de tradutor (tradução revista por R. Correia).

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Sonetos, Camões

Fim-de-semana passado, li os sonetos de Camões. Tenho uma queda por poesia portuguesa, e isso, junto da minha queda maior ainda pelo que se escreveu no XVI, fez com que eu aproveitasse muito bem.

O que me surpreendeu foi aquela espécie de simplicidade em seus versos, sem muitas inversões e tudo o que mais se costuma esperar de uma obra de quase 500 anos. Tende-se, na verdade, a pensar que, quanto mais antigo o livro, mais difícil a leitura. É um engano, pois isso depende mais do estilo do autor. Quando se lê obras estrangeiras no idioma original é fácil perceber que a distância de nossa época importa muito menos que o estilo. Por exemplo, é muito mais fácil, a meu ver, ler o francês de Voltaire e mesmo de Racine que o de Victor Hugo e Rimbaud.

Os versos de Camões são diretos, mas não é difícil ver o que há de trabalhoso por trás de toda sua beleza.  E esse trabalho desafia constantemente o leitor, embora, estranhamente, não ponha jamais em questão a compreensão do poema. A uma vez, é simples e complexo. Acredito que esse seja um dos segredos da elegância.

Edição: Klick editora, 1998.

 

Erros meus, má fortuna, amor ardente,
Em minha perdição se conjuraram;
Os erros e a fortuna sobejaram,
Que para mim bastava o amor somente.
 
Tudo passei, mas tenho tão presente
A grande dor das cousas que passaram,
Que magoadas iras me ensinaram
A não querer já nunca ser contente.
 
Errei todo o discurso de meus anos,
Dei causa que a Fortuna castigasse
As minhas mal fundadas esperanças.
 
De amor não vi senão breves enganos.
Oh, quem tanto pudesse, que fartasse
Este meu duro Gênio de vinganças!
 

 

 

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Tenho 8 obras sobre as quais escrever no blog, e não tenho tempo para nenhuma. Enquanto o tempo não chega, deixo por aqui umas gravuras renascentistas.

 

Mulher vista de trás, Michelângelo.

 

Sem título, Guido Reni.

Atlas, Peruzzi.

Madonna, criança e anjo, Zuccaro.

Estudo de Santa Catarina, Parmigianino.

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