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Mulheres que leem

nem sempre têm baixos os olhos.

 

Alexey Tyranov, Retrato de uma menina, 1850.

 

José Ferraz de Almeida Júnior, Moça com livro, s/d.

 

Léon François Comerre, A bela leitora, s/d.

 

Marie Spartali Stillman, Beatriz, 1895.

 

Elizabeth Adela Forbes, s/t, 1904.

 

Haskell Coffin, A dona-de-casa de hoje em dia, 1918.

 

Tamara de Lempicka, A polonesa, 1933.

 

Mary Alayne Thomas, Migração, 2004.

 

Slava Groshev, Garota sênior, 200-.

 

Jean Monti, Retrato, 200-.

 

Livro antigo, daquele estilo ‘grandes homens’, meio biográfico, meio analítico. Apesar do caráter laudatório, não é de todo ruim. Uma leitura leve, instrutiva no factualismo básico durante o governo do cardeal. Esse tipo de livro de história também é bom por causa das curiosidades, pelas quais esses historiadores de escrita tradicional parecem ter uma queda, por exemplo: Richelieu, de cama, era alimentado de hora em hora com uma colherada de gema de ovo. Que curioso, não? Será que era uma gema inteira em cada colher? Talvez isso merecesse uma nova pesquisa.

O que move os acontecimentos, nesse livro, ao que me pareceu, são os ciúmes, os sentimentos, as rivalidades pessoais entre as pessoas de projeção. Na leitura, isso nem sempre é ruim: se o historiador souber escrever de verdade, a abordagem da história sob a forma de enredo trágico (ou mesmo cômico) pode ser ótima para o resultado final do livro, pode até instruir mais facilmente sobre as intrigas e dilemas cuja força não nos parece muito nítida hoje; se não souber, porém, pode ser ridículo. Esse livro é um meio-termo.

Edição: Zahar, 1963. Tradução de Waltensir Dutra.

Mulheres que leem

têm o sorriso mais bonitinho.

 

Gabriel Ferrier, Mulher lendo. c. 1869.

 

Ilya Repin, Menina lendo, 1876.

 

Julia Beck, Autoretrato, 1882.

 

Albert Lynch, Leitura quieta, s/d.

 

James Tissot, Lendo um livro, 1890.

 

Adolphe Piot, Jovem lendo um livro, 190-

 

Victor Gabriel Gilbert, Menina lendo, 191-.

 

Guglielmo Zocchi, Leitura divertida, s/d.

 

Valeria Kotsareva, s/t, 1997.

 

Irisz Agocs, Lendo outra vez, 200-

 

 

 

 

 

 

O livro de Gabrielle Colette me surpreendeu. Nunca tinha lido nada dela, mas, não sei, talvez por nunca ter ouvido grandes elogios por aí, não esperava algo tão forte. Enganei-me, claro. Apesar de não muito falada, Gabreille Colette é uma grande escritora.

A Vagabunda é o romance de um trecho da vida de uma artista do music hall francês do início do século XX. Circunscrita às impressões e devaneios da protagonista, a narrativa é de grande carga emocional, sem, no entanto, tornar-se melodramática em excesso. Tem trechos de grande beleza, sobretudo aqueles em que a sensibilidade da  personagem às nuances do ambiente é posta em evidência (em parte alguma do livro, o leitor deixa de perceber as passagens de estação, a história se passa entre um outono e uma primavera). Além da beleza, e acredito ser este o forte da obra, há grande complexidade psicológica nos dramas da protagonista. Pelo meu estilo de ler, tendo a deixar em segundo plano as queixas existenciais dos personagens, por falta de paciência mesmo. Não pude fazer isso nessa obra, porque a autora usa o cenário e a condição da personagem para salientar os dramas femininos, e o faz com tamanha habilidade que as angústias de Renée Néré juntam à obra muita importância sociológica.

Edição: Abril, 1971. Tradução: Juracy Daisy Marchese.

 

Jacques Humbert, Retrato de Colette aos 23 anos, 1896.

Mulheres que leem

em azul escuro, celeste, marinho, turquesa.

 

Pierre-Auguste Renoir, Camille Monet lendo, 1876.

 

Charles Edward Perugini, Menina lendo, 1879.

 

John White Alexander, Aleteia, 1895.

 

Konstantin Somov, Dama em azul - retrato da artista Yelizaveta Martynova, 1900.

 

Theodore Earl Butler, Lili lendo na casa Butler em Giverny, 1908.

 

Felix Vallotton, O retorno do mar, 1924.

 

Lilla Cabot Perry, Menina ruiva lendo, s/d.

 

Frederick Carl Frieseke, Menina azul lendo, 1935.

 

Ivan Olinsky, Uma mulher lendo, s/d.

 

Balvi, A hora do chá, 199-.

 

 

O primeiro livro de Pirandello que leio. É genial, extremamente divertido e inteligente. Apesar das situações que suscitam ao personagem reflexões profundas sobre a liberdade, a vida e a morte, a obra é entrecortada por cenas muito bem-humoradas, conduzidas por uma escrita leve e fluente (o que se deve à qualidade da tradução). Gostei muito.

Foi escrito nos primeiros anos do século XX, e conta a história de Mattia Pascal, um homem de vida frustrada que vê no jornal a notícia da própria morte. Aproveita-se do engano para abandonar a vida antiga e seguir rumos novos, completamente desprendido das ladainhas dos homens, porque agora era livre para fazer o que quisesse. Ganha dinheiro, inventa outro nome, outra aparência e muda de cidade. Aos poucos, descobre, no entanto, que a vida ficcional que assume não é uma vida realmente, não é, por assim dizer, uma vida como a dos homens vivos. Ao despertar de seu amor por uma mulher simples, compreende cada vez mais que sua liberdade era uma mentira, que a nova identidade que criara era um fantasma. E sabe como resolver a questão: deixando a bengala e o chapéu na beira de uma ponte, simula o suicídio de seu personagem, e volta a sua aldeia natal para desmentir, dois anos depois, sua pretensa morte. As pessoas não lembram de Mattia, e sua esposa está casada com outro homem. Passa, então, uma existência pacata e escreve sua história.

Edição: Abril, 1972. Trad.: Mário da Silva.

Giacomo Balla, Dinamismo de um cão na coleira, 1912.

É o primeiro livro que leio de Camus. Achei que não fosse gostar, mas até que gostei. É uma obra cheia de metáforas e bastante circunstancial, fortemente relacionada com o contexto da ocupação nazista da França.

A peça passa-se na Espanha e apresenta Cádiz governada pela Peste, que, usurpando o poder de um líder inerte, instaura um regime burocrático esvaziado de sentido. A vida dos cidadãos é submetida pelo império da Peste e sua secretária, de modo que o sofrimento e o desespero tornem-se banais. Na peça, toda dor vem da imposição, pelo terror, de uma ordem administrativa à vida pura (tanto no caráter das reformas do governo da Peste quanto no fato de a Peste ter tido necessidade de tomar o poder para flagelar a cidade). No fim, a chave para derrotar o mal está em vencer o medo que se tem dele, e Camus conclui a obra com a afirmação do homem sobre a ordem que lhe é imposta, como se o regime impusesse uma força histórica e o homem respondesse com uma força eterna.

Camus tem belas palavras, há momentos muito bonitos na obra, mas, no geral, achei tudo muito caricato e muito óbvio. A peça não é comparável às grandes obras dos séculos anteriores, a Peste não se compara às personagens vilãs do classicismo e a angústia dos cidadãos com a conseguinte explosão de ímpeto do fim da peça não se compara a seus equivalentes do romantismo. Mas, se tem algo em que percebo o valor dessa obra, é no vazio que há por trás de tudo: nem o cenário colorido da Espanha, nem a maldade da Peste e a lógica da secretária, nem a resposta dos homens, nem o amor dos protagonistas, nada disso parece muito verdadeiro: o único personagem que parece resumir tudo e carregar o real valor da obra é um, curioso, chamado Nada. É nele, em suas falas e ações, que vejo tudo o que até agora penso de Camus.