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Pequenino livro com algumas crônicas do escritor gaúcho Sérgio Faraco, com temas da antiguidade grega e qualquer coisa autobiográfica. O contraste entre a temática erudita e a forma jornalística do gênero faz da maioria dos textos algo interessante de se ler, sobretudo por causa das referências a autores clássicos. Mas os dois que destaco não são de ambiente grego: Cantata para uma escrava triste, uma memória de Alegrete nos anos 50, e Livros perdidos, uma pequena reflexão sobre os livros que, por causas diversas, não chegaram a nós. São duas crônicas legais de um livrinho que achei bem médio.

Edição: Porto Alegre: Mercado Aberto, 1998.

Stendhal é mais famoso por O Vermelho e o Negro, Napoleão e Do Amor, nenhum dos quais li ainda. Peguei Crônicas Italianas, que me ganhou pela curiosidade desperatada pelo título.

As crônicas contidas no pequeno volume são de autoria de Stendhal e têm como personagens, sobretudo, figuras reais. Foram publicadas em diversos periódicos e reunidas postumamente por seu primo Romain Colomb. Stendhal foi cônsul na Itália, quando teve ocasião de ler vasto material de história das cidades da península, tanto impresso quanto manuscrito. Sabe-se que mandou copiar muitas histórias dos séculos XVI e XVII encontradas em suas pesquisas, material que resultou em quatorze volumes hoje guardados na BNF.

As Crônicas Italianas são, portanto, escritos seus inspirados por essa busca por conhecimento dos costumes de uma época que o apaixonou, tendo em vista seus outros escritos sobre o Renascimento italiano e suas palavras nas próprias crônicas.  São seis, as crônicas, quatro das quais se passam no século XVI, uma no XVIII e uma no XIX. Relatos curtos de histórias envolvendo paixão, intriga e morte nas cortes papais. Assassinatos encomendados, emboscadas e suicídios são constantes. Damas e princesas de beleza sobre-humana prometidas a nobres que não amavam, príncipes celerados, cardeais poderosos, bandoleiros e aventureiros de alma heroica são os personagens com que o autor constrói esse cenário de mascaradas. Mas o destaque são os introitos, onde Stendhal faz pequenas ponderações tangentes ao assunto da crônica, como em Os Cenci, em que introduz algumas ideias sobre o mito de Don Juan, e em A Duquesa de Palliano, em que fala brevemente sobre paixão na Itália.

As crônicas reunidas no livro são as seguintes: A Abadessa de Castro, Vitória Accoramboni, Os Cenci, A Duquesa de Palliano, San Francesco a Ripa, Vanina Vanini.

Edição: Otto Pierre Editores, São Paulo; Amigos do Livro, Lisboa; Éditions Ferni, Paris, s/d (197-). Sem indicação de tradutor (tradução revista por R. Correia).

Os melhores de 2011/2

E os prêmios de melhores obras lidas no segundo semestre de 2011 vão para…

 

Romance: Orgulho e Preconceito, Jane Austen;

Conto/novela: Um homem célebre, Machado de Assis;

Poesia: Sonetos, Camões;

Teatro: Édipo Rei, Sófocles;

Acadêmico: O Romantismo, Jaime Guinsburg (org);

Outro: Victor Hugo – uma biografia, Graham Hobb.

 

Joseph Wright of Derby, Índia viúva, 1783-84.

Último post de 2011

O fim do ano sempre me foi uma época em que o futuro e o passado batem à porta. Com exceção do aniversário, é a data mais angustiante do ano. Truffaut disse em uma entrevista que dezembro era o mês em que mais trabalhava, e que isso provavelmente se devia a uma sensação mais nítida de que o tempo passava e de que não conseguia fazer todas as coisas que queria. Tenho isso com todas as datas que marcam o tempo. Por isso, escolhi uma imagem de alívio para o último post desse ano. Uma pintura de luz e beleza para brindar a oportunidade de recomeçar do zero e tentar de novo, que o ano novo é isso.

 

Gustav Klimt, Retrato de Serena Lederer, 1899.

Era o último dos grandes romances de Machado que faltava ler. Restam aqueles menos conhecidos, como Helena, etc – mas estes não tenho pressa de pegar. Memórias Póstumas de Brás Cubas foi o romance de Machado que mais gostei, junto com Quincas Borba. Têm muito em comum, na verdade. Dos dois, gosto muito é da comicidade, que, porque o autor é um gênio, em nada prejudica a força intelectual da obra, outro ponto forte. É um humor inteligente que acredito dever muito a Voltaire, com uma ironia às vezes até cruel, mas que, impressão minha, tem certa melancolia face ao destino que tomam as coisas. Apesar de bem-humorada, achei Memórias Póstumas uma obra extremamente triste.

 

Goustave Courbet, Após o jantar, 1849.

Mulheres e meninas que leem

em trio.

 

A reading party, desenho em Godey's Lady's Book, 1846.

 

Mary Cassatt, Leitura em família, 1901.

 

Sir Walter Firle, Três meninas lendo, s/d.

 

Ellen Dreibelbis, Meninas mexicanas lendo, 2010.

 

Cyrano de Bergerac é uma bela peça escrita em verso por Edmond Rostand em 1897. A tradução que li foi a de Carlos Porto Carreiro, comentada por Ivo Barroso aqui. Cyrano é um personagem realmente fantástico, espadachim e poeta, cômico e impressionante. Tem um nariz de tamanho anormal e um temperamento extravagante. Abusando da capa e do chapéu com penas, está na sessão dos heróis fora de moda, enterrado muito mais fundo que os três mosqueteiros e Robin Hood.

Cyrano existiu de verdade. O que Rostand fez, assim como alguns outros autores, foi teatralizar sua vida por demais agitada e polêmica. É um desses personagens históricos cuja vida na literatura torna difícil de se desenlaçar a verdade da fantasia. O fato é que escreveu peças, poemas e dois livros cômicos de história – aqui, uma de suas peças.

O Cyrano de Rostand, apaixonado e galhofeiro, faz coro com outros personagens muito interessantes, como o pasteleiro-poeta Ragueneau. O número de personagens é mesmo muito grande, devia ser uma peça barulhenta de se assistir. Pelo menos, é barulhenta de se ler. Acima de tudo, é um espetáculo, um desfile fascinante de tipos da época.

 

Anônimo, Cyrano de Bergerac, século XVII.

Jesus Cristo

Ontem foi 25 de dezembro, data em que os cristãos comemoram o nascimento de Jesus Cristo. Abaixo, algumas pinturas sobre a infância e juventude deste que é o mais célebre personagem histórico-literário do ocidente. Ao que me conste, é, atualmente, o único personagem de livro a ter espalhados no mundo templos em seu nome, de modo que sua adoração represente o ponto mais alto a que pôde até agora chegar a celebridade de um enredo histórico ou ficcional.

 

 

Hieronymus Bosch, Menino Jesus com um andador, c. 1420.

 

Giorgione, Madona e Menino entronados entre São Francisco e São Liberal, c. 1505.

 

El Greco, São José e menino Jesus, 1600.

 

Rubens, Virgem em adoração diante do menino Jesus, 1615.

 

Guido Reni, São José com o menino Jesus, 1620.

 

Murillo, Adoração dos pastores, 1646-50.

 

Rembrandt, Virgem e Menino com o gato e a cobra, 1654.

 

Millais, Cristo na casa de seus pais, 1850.

 

James Tissot, Juventude de Jesus, c. 1886-94.

 

Max Ernst, Virgem espancando o menino Jesus diante de três testemunhas: Andre Breton, Paul Éluard e o pintor, 1926.

Sereias

Resolvi postar algumas obras de arte sobre um tema. Semanalmente, quem sabe.

Nesta semana, sereias. Estão entre minhas criaturas fantásticas favoritas, talvez pela associação entre beleza e condenação, que é a mesma associação a que conduz a imagem do oceano, uma espécie de sugestão irresistível. A beleza que condena é um clichê da autopiedade de artistas pouco talentosos, mas todo clichê saiu de uma força verdadeira. A sereia reúne em sua figura ideias de uma fascinação que prende, que prende para sempre. O canto misterioso e a beleza são convites que, aceitos, tragarão o homem a um estado de onde jamais retornará. Isso pode ser a morte, mas não necessariamente. De qualquer forma, das preocupações que passam pela cabeça do encantado pela sereia, a morte é a última.

A sereia, para seu desfrute, pode prender a vítima em uma miragem sem fim, por isso acredito que sua figura diga respeito à busca do homem por felicidade (ou glória, ou amor, ou prazer). Ilusão de uma ilusão, sereias são perigosas porque devoram homens com plena anuência destes.

 

Giovanni Caccioli, Esboço de uma sereia vista de costas deitada em uma rocha marinha, s/d (séc XVII).

 

Mikhail Vrubel, Sereia, 1891.

 

Gustav Klimt, Sereias, 1899.

 

John William Waterhouse, Sereia, 1900.

 

Alice Woodward, Sereia em uma Rocha - ilustração para Peter Pan, 1907.

 

Herbert Cole, Sereia, 1915.

 

Craig Mullins, Sereia, s/d.

 

Sonetos, Camões

Fim-de-semana passado, li os sonetos de Camões. Tenho uma queda por poesia portuguesa, e isso, junto da minha queda maior ainda pelo que se escreveu no XVI, fez com que eu aproveitasse muito bem.

O que me surpreendeu foi aquela espécie de simplicidade em seus versos, sem muitas inversões e tudo o que mais se costuma esperar de uma obra de quase 500 anos. Tende-se, na verdade, a pensar que, quanto mais antigo o livro, mais difícil a leitura. É um engano, pois isso depende mais do estilo do autor. Quando se lê obras estrangeiras no idioma original é fácil perceber que a distância de nossa época importa muito menos que o estilo. Por exemplo, é muito mais fácil, a meu ver, ler o francês de Voltaire e mesmo de Racine que o de Victor Hugo e Rimbaud.

Os versos de Camões são diretos, mas não é difícil ver o que há de trabalhoso por trás de toda sua beleza.  E esse trabalho desafia constantemente o leitor, embora, estranhamente, não ponha jamais em questão a compreensão do poema. A uma vez, é simples e complexo. Acredito que esse seja um dos segredos da elegância.

Edição: Klick editora, 1998.

 

Erros meus, má fortuna, amor ardente,
Em minha perdição se conjuraram;
Os erros e a fortuna sobejaram,
Que para mim bastava o amor somente.
 
Tudo passei, mas tenho tão presente
A grande dor das cousas que passaram,
Que magoadas iras me ensinaram
A não querer já nunca ser contente.
 
Errei todo o discurso de meus anos,
Dei causa que a Fortuna castigasse
As minhas mal fundadas esperanças.
 
De amor não vi senão breves enganos.
Oh, quem tanto pudesse, que fartasse
Este meu duro Gênio de vinganças!